Vives a preocupar-te com o que pensam de ti? Porque é que isso está tão enraizado e o que ajuda mesmo
Carregas em enviar. Depois relês a mensagem. E voltas a relê-la, desta vez com a voz da outra pessoa em vez da tua, a tentar perceber se aquele ponto final soou frio ou apenas definitivo.
Revês a reunião na cabeça. Será que aquela pausa quis dizer alguma coisa? Será que o riso te saiu estranho? O silêncio no fim era desaprovação, ou ela estava só a pensar?
Sabes que nada disto é justo para ti. Sabes que também não é justo para os outros. E, horas depois, continuas a voltar aos mesmos trinta segundos, à procura de provas de algo que provavelmente nem existe.
É este o ciclo de quem se preocupa com o que os outros pensam. É esgotante e incrivelmente comum. E é um daqueles padrões que fazem mais barulho quanto mais tentas discutir com eles.
Num inquérito da YouGov, 73% das pessoas entre os 25 e os 34 anos no Reino Unido dizem pensar demasiado com regularidade [1]. Dados do National Institute of Mental Health situam em 12,1% a prevalência ao longo da vida da perturbação de ansiedade social nos Estados Unidos [2]. Os números mais recentes do NHS England mostram que 25,8% dos jovens entre os 16 e os 24 anos em Inglaterra cumprem hoje os critérios de uma perturbação mental comum [3]. A procura de aprovação e a necessidade de agradar a toda a gente não são diagnósticos autónomos, mas estão mesmo no centro de quadros que o são: ansiedade social, ansiedade generalizada, perfeccionismo, humor deprimido.
Este artigo não te vai dizer para deixares de te importar com o que as pessoas pensam. Quem dá esse conselho está quase sempre, sem dar por isso, a subestimar a profundidade a que isto está enraizado. A ideia é perceber porque é que o padrão existe, o que um dos pensadores mais influentes nesta área diz sobre as suas origens e o que a evidência indica que ajuda de facto.
Porque é que nos importamos tanto com o que os outros pensam
Importares-te com o que os outros pensam de ti não é um defeito: faz parte de ser humano. O sistema nervoso evoluiu em grupos pequenos, em que a inclusão social era uma questão de sobrevivência, e o cérebro continua a tratar a ameaça de desaprovação como algo próximo de um perigo físico.
A neuroimagem torna isto visível. Um estudo de ressonância magnética funcional (fMRI) de Stein e colegas mostrou que as pessoas com tendência para a ansiedade social apresentavam uma ativação da amígdala significativamente maior ao verem expressões faciais duras ou críticas, em comparação com o grupo de controlo [4]. A amígdala, o sistema de deteção de ameaças do cérebro, dispara perante um olhar do outro lado da sala da mesma forma que a maioria dos cérebros dispara perante um risco real. A meta-análise de estudos de neuroimagem de Etkin e Wager confirmou o mesmo padrão mais geral: circuitos de ameaça hiperativos, a par de um córtex cingulado anterior que trabalha em esforço, a monitorizar cada palavra e cada gesto à procura de sinais de fracasso [5]. Investigação publicada na Biological Psychiatry mostrou que a ligação entre a amígdala e o córtex pré-frontal, a parte do cérebro que, com calma, põe as coisas em contexto, é muitas vezes mais fraca nas pessoas que ficam presas neste ciclo [6]. O alarme toca, e a parte de ti que normalmente diria “está tudo bem” chega tarde demais, ou nem chega.
Por isso, se passas horas a rever conversas na cabeça, não é fraqueza: é um sistema nervoso normal a fazer o que os sistemas nervosos fazem, num corpo que aprendeu a vasculhar o mundo social à procura de ameaças. (Explicamos isto com mais pormenor no nosso artigo sobre porque é que a ansiedade social é mais do que timidez.)
A questão é porque é que o sistema nervoso aprende isto, e porque é que o mantém.
O que o Dr. Gabor Maté diz sobre a procura de aprovação
Num episódio recente do podcast On Purpose, de Jay Shetty, gravado ao vivo no Orpheum Theatre, em Vancouver, o médico canadiano e especialista em trauma Dr. Gabor Maté analisa esta questão em pormenor [7]. O episódio chama-se “Dr. Gabor Maté: Constantly Worrying What People Think of You? (THIS Simple Shift Will Help You Trust Yourself and Stop Seeking Approval)”.
O argumento de Maté, parafraseado a partir da conversa, é que o padrão começa quase sempre na infância. A necessidade básica de qualquer criança, a de ser vista e aceite tal como é, nem sempre é plenamente satisfeita. Quando não é, as crianças adaptam-se. Aprendem, sem alarde, que partes de si trazem afeto e que partes trazem distância, e começam a representar a versão que mantém a ligação intacta. Com o tempo, essa representação deixa de parecer uma estratégia e passa a parecer quem elas são.
Esta ideia assenta num quadro mais amplo que Maté apresenta no livro O Mito do Normal (The Myth of Normal, no original), escrito com o filho, Daniel Maté [8]. Defende que nascemos com duas necessidades essenciais. Uma é a vinculação, o laço com quem cuida de nós, sem o qual uma criança não sobrevive. A outra é a autenticidade, o contacto com os nossos próprios sentimentos, instintos e sentido de identidade. Quando as duas entram em tensão, quando a autenticidade parece pôr a vinculação em risco, a criança não tem verdadeira escolha: a vinculação ganha e a autenticidade fica discretamente arrumada numa gaveta.
Essa troca não acaba quando a criança cresce. Na vida adulta, traduz-se em reler a mensagem seis vezes, pedir desculpa antes de teres dito o que quer que seja, dizer que sim quando o corpo já está a dizer que não, limar as arestas nas reuniões, representar a versão que achas que a sala quer. O ciclo em que estás aos trinta não é um comportamento novo: é uma estratégia antiga que continua a cumprir a função para que foi contratada.
Para Maté, isto não quer dizer que haja algo de errado contigo. Quer dizer que te adaptaste. Em tempos, a estratégia resultou. O único custo é continuar em marcha muito depois de as condições originais terem mudado.
A mudança simples que Maté descreve
Ao ouvir o episódio, percebe-se que a “mudança simples” a que Maté está sempre a voltar não é uma técnica, é uma postura. Parafraseando: parares o tempo suficiente para reparares no que é mesmo verdade para ti, fazeres-te uma pergunta honesta sobre isso e depois dares-te permissão para agir de acordo com a resposta, mesmo que em coisas pequenas.
Parece modesto porque é. Mas faz algo muito específico: reconstrói um sinal que aprendeste a ignorar. Cada pequeno momento de “o que é que eu sinto mesmo em relação a isto” ou “isto é um sim meu, ou um sim para os outros” volta a ligar-te, pouco a pouco, à parte de ti que ficou arrumada na gaveta. Não estás a tentar deixar de te importar com o que os outros pensam. Estás a tentar garantir que a tua voz também se faz ouvir.
É também por isso que o trabalho precisa de ser pequeno para ser sustentável. Tentar acabar com a procura de aprovação num fim de semana, à força, tende a produzir mais representação, só que disfarçada de crescimento. Uma atenção lenta e discreta é aquilo que o sistema nervoso consegue de facto assimilar.
O que não funciona
Dizeres para contigo que basta deixares de te importar. É óbvio, mas vale a pena dizê-lo, porque o primeiro instinto da maioria das pessoas, quando dá por si no ciclo, é tentar sair dele à força de pensar.
O problema é que a supressão tem o efeito contrário. As conhecidas experiências do urso branco, de Daniel Wegner, mostraram que, quando tentas ativamente não pensar numa coisa, a parte do cérebro que fica encarregada de verificar se já deixaste de pensar nela mantém o pensamento vivo [9]. Tentar afastar a preocupação tende a dar-lhe mais tempo de antena, e não menos. (Falámos deste ciclo em pormenor no nosso artigo sobre pensar demasiado.)
A procura de tranquilização também costuma sair pela culatra: contar a mesma preocupação a três amigos, fazer uma captura de ecrã da mensagem, perguntar se o que disseste na reunião soou estranho. No momento, alivia. Com o tempo, o ciclo aprende que só consegue sossegar depois de outra pessoa dar o aval. O sinal interno que precisas mesmo de reconstruir fica mais fraco, em vez de mais forte.
E depois há a estratégia mais cara, a que Maté descreve de forma mais direta: esforçares-te ainda mais por ser quem achas que as pessoas querem, afinar a representação. Isso tende a produzir o contrário do que promete. Quanto mais te moldas, menos segurança sentes quando alguém te vê, porque a versão que está à vista é uma em que nem tu acreditas muito.
O que a evidência sustenta
Nada do que se segue é uma solução. A procura de aprovação é um padrão com raízes profundas, que cede devagar, com mudanças pequenas e fáceis de repetir, e não com gestos heroicos.
Dá nome ao que estás a sentir
A investigação da UCLA sobre a nomeação de emoções (affect labelling) mostrou que pôr os sentimentos em palavras reduzia diretamente a atividade da amígdala [10]. Quando os participantes davam nome ao seu estado emocional, o sistema de deteção de ameaças do cérebro acalmava. Dar nome ao que sentes é das coisas mais baratas que podes fazer por um sistema nervoso em plena espiral.
Na preocupação com a aprovação, isto significa muitas vezes passar de “fiquei com uma sensação estranha por causa daquela mensagem” para “tenho medo de que ela tenha achado que eu exagerei, e isso está a deixar-me com vergonha”. O que faz a diferença é a precisão. O vago alimenta o ciclo; os contornos dão ao sentimento uma forma para a qual já consegues olhar.
Respira mais devagar
Quando a preocupação está a todo o gás, a respiração costuma ficar curta e rápida sem dares por isso. Isso estimula o sistema nervoso simpático, que alimenta a preocupação, que alimenta o ciclo. Uma revisão sistemática publicada na Frontiers in Human Neuroscience concluiu que a respiração lenta, a cerca de seis respirações por minuto, ativa o sistema nervoso parassimpático e reduz a ansiedade de forma mensurável em poucos minutos [11].
Dois minutos já fazem diferença. Inspira a contar até quatro, sustém durante quatro, expira em quatro, sustém durante quatro. A ideia não é sentires calma, é dares ao corpo um sinal diferente com que trabalhar.
Reformula a previsão
A preocupação com a aprovação vive de previsões. “Ela acha-me irritante.” “Ele reparou que eu corei.” “Vão todos concluir que não vale a pena ter-me por perto.” Parecem factos, mas são palpites que o cérebro faz com muito pouca informação.
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) lida com este tipo de pensamento sem o substituir por positividade: confronta-o com aquilo que de facto se sabe. Uma meta-análise de 41 ensaios clínicos aleatorizados controlados por placebo concluiu que a TCC é eficaz nas perturbações relacionadas com a ansiedade, e investigação de seguimento publicada na JAMA Psychiatry mostrou que os ganhos se mantêm bem depois de o tratamento terminar [12]. (Escrevemos mais sobre isto no nosso guia sobre como funciona a TCC para a ansiedade.)
Não precisas de ter terapeuta na sala para experimentar isto. Apanha o pensamento, escreve-o e pergunta-te: isto é um facto ou uma previsão? O que diria eu a alguém de quem gosto que estivesse a pensar assim? Há alguma versão disto mais rigorosa do que a leitura do pior cenário? O objetivo não é a positividade, é o rigor. “Ela não respondeu porque detestou a minha mensagem” é quase sempre menos rigoroso do que “na verdade, não sei porque é que ela ainda não respondeu”.
Larga os comportamentos de segurança
Esta parte é desconfortável, e é também aí que a verdadeira mudança costuma acontecer.
Os comportamentos de segurança são as pequenas formas de te protegeres enquanto parece que estás a dar a cara: ensaiar uma frase três vezes antes de a dizeres, encolheres-te numa reunião para não correres o risco de errar, dizer que sim para manter a paz, pedir desculpa por antecipação, escrever e reescrever uma mensagem até já não restar nela qualquer traço teu.
Um estudo de Wells e colegas, com base no influente modelo cognitivo da ansiedade social de Clark e Wells, verificou que as pessoas que usavam comportamentos de segurança durante as interações sociais sentiam depois tanta ansiedade como as que evitavam a situação por completo [13]. O cérebro não regista a experiência como prova de que correu tudo bem: regista-a como “sobrevivi porque não baixei a guarda”. A avaliação de ameaça mantém-se intacta.
Trata-se de fazer a coisa pequena sem rede: enviar a mensagem sem a reescrever pela quinta vez, dizer na reunião a frase por polir, deixar o silêncio durar mais um segundo. De cada vez, o cérebro recebe uma informação nova e limpa: “fiz aquilo, e ficou tudo bem”.
Repara numa coisa que seja verdade para ti, e não para o público
A maior parte do ciclo constrói-se à volta do que imaginas que se passa na cabeça dos outros. Um contrapeso útil é dedicares todos os dias um pouco de atenção ao que de facto se passa na tua. Não à versão editada, mas à honesta.
Os estudos de Pennebaker sobre escrita expressiva mostraram que pôr os pensamentos no papel, em privado, reduzia os pensamentos intrusivos e melhorava o bem-estar psicológico [14]. Não precisa de ficar bem escrito, nem sequer de fazer sentido. Só o facto de passares o que tens na cabeça para fora dela muda a relação que tens com isso.
É este o músculo para que Maté aponta: a prática pequena e regular de te perguntares o que sentes de verdade e de dares a essa resposta a atenção que ela merece.
O objetivo não é deixares de te importar
A procura de aprovação cede devagar. O que muda primeiro não é, em geral, a preocupação em si, mas a tua relação com ela. Dás por ela mais cedo. Dás-lhe um pouco menos de autoridade. Dizes a frase por polir. Deixas o silêncio durar um instante a mais do que seria confortável. O padrão não desaparece, passa só a ocupar um pouco menos de espaço.
O objetivo nunca foi deixares de te importar com o que os outros pensam. É deixares de tratar o veredicto deles como o único que conta numa sala onde tu também estás.
Uma forma mais tranquila de começar
O MoodFire foi feito para aqueles momentos intermédios, quando o ciclo dispara às 11 da noite e a lista de espera para terapeuta é de três meses. Há registos de humor de manhã e à noite, inspirados na investigação sobre a nomeação de emoções, para que o sentimento tenha onde pousar. O Reformular, a nossa ferramenta de reformulação de pensamentos baseada na TCC, ajuda-te a apanhar a previsão e a testá-la com aquilo que sabes de facto. O Respirar guia-te numa respiração lenta, pensada em função da ativação parassimpática. O Ancorar traz-te de volta ao momento presente quando a preocupação te levou para outro lado. A Faísca oferece um pequeno contrapeso diário a um cérebro programado para procurar desaprovação.
Não resolve o padrão. É um sítio onde pôr a atenção quando aparece o “o que é que pensaram de mim” e não sabes o que fazer com isso.
O MoodFire não tem qualquer ligação ao Dr. Gabor Maté nem a Jay Shetty, e não é apoiado nem patrocinado por eles. As referências ao trabalho de ambos, ao podcast On Purpose e ao livro O Mito do Normal (The Myth of Normal) são editoriais e destinam-se exclusivamente a fins educativos.
Fontes
- YouGov, dados de inquérito sobre pensar demasiado (overthinking), adultos do Reino Unido por faixa etária.
- National Institute of Mental Health, estatísticas: Social Anxiety Disorder.
- NHS England, Adult Psychiatric Morbidity Survey: Survey of Mental Health and Wellbeing, England 2023/24.
- Stein et al. (2002), Increased Amygdala Activation to Angry and Contemptuous Faces in Generalized Social Phobia, Archives of General Psychiatry.
- Etkin & Wager (2007), Functional Neuroimaging of Anxiety: A Meta-Analysis of Emotional Processing in PTSD, Social Anxiety Disorder, and Specific Phobia, American Journal of Psychiatry.
- Hahn et al. (2011), Reduced Functional Connectivity Between Amygdala and Prefrontal Cortex in Social Anxiety Disorder, Biological Psychiatry.
- Shetty, J. (apresentador), Dr. Gabor Maté: Constantly Worrying What People Think of You? (THIS Simple Shift Will Help You Trust Yourself and Stop Seeking Approval), On Purpose with Jay Shetty, gravado ao vivo no Orpheum Theatre, em Vancouver.
- Maté, G. & Maté, D. (2022), The Myth of Normal: Trauma, Illness and Healing in a Toxic Culture, Avery.
- Wegner, D.M. (1994), Ironic Processes of Mental Control, Psychological Review.
- Lieberman et al. (2007), Putting Feelings Into Words: Affect Labeling Disrupts Amygdala Activity in Response to Affective Stimuli, Psychological Science.
- Zaccaro et al. (2018), How Breath-Control Can Change Your Life: A Systematic Review on Psycho-Physiological Correlates of Slow Breathing, Frontiers in Human Neuroscience.
- Carpenter et al. (2018), Cognitive behavioral therapy for anxiety and related disorders: A meta-analysis of randomized placebo-controlled trials; van Dis et al. (2020), Long-term Outcomes of Cognitive Behavioral Therapy for Anxiety-Related Disorders, JAMA Psychiatry.
- Wells et al. (1995), Social Phobia: The Role of In-Situation Safety Behaviors in Maintaining Anxiety and Negative Beliefs, Behaviour Research and Therapy; Clark & Wells (1995), A Cognitive Model of Social Phobia.
- Pennebaker, J.W. (1997), Writing About Emotional Experiences as a Therapeutic Process, Psychological Science.