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TCC para a ansiedade: como funciona a terapia cognitivo-comportamental e como usá-la

Provavelmente já ouviste falar dela: um terapeuta mencionou-a, um artigo recomendou-a, alguém nas redes sociais disse que “mudou a minha vida”. A terapia cognitivo-comportamental, ou TCC, tornou-se o tratamento psicológico mais referido para a ansiedade, e com razão. Tem mais evidência clínica a sustentá-la do que qualquer outra forma de psicoterapia para as perturbações de ansiedade.

Mas a maioria das pessoas que já ouviu falar de TCC não saberia dizer em que consiste, na prática. O nome também não ajuda. “Terapia cognitivo-comportamental” soa a algo que acontece num consultório, com uma prancheta e um cronómetro de cinquenta minutos. Na realidade, a TCC é um conjunto de técnicas práticas e estruturadas que incidem sobre a forma como pensas e a forma como ages, as duas coisas que mantêm a ansiedade instalada.

A ideia central é de uma simplicidade enganadora. A ansiedade não é só uma sensação que aparece do nada. É alimentada por padrões: de pensamento, que sobrestimam a ameaça e subestimam a tua capacidade de lhe fazer frente, e de comportamento, que te levam a evitar aquilo que temes, o que sabe a alívio a curto prazo mas alimenta a ansiedade a longo prazo. A TCC interrompe os dois lados desse ciclo.

A evidência é sólida. Uma meta-análise de Hofmann e Smits (2008), publicada no Journal of Consulting and Clinical Psychology, analisou 27 ensaios clínicos aleatorizados e verificou que a TCC tem efeitos de grande magnitude nas perturbações de ansiedade, superando por larga margem o placebo e os grupos de controlo em lista de espera. O NICE, o instituto nacional britânico para a excelência na saúde e nos cuidados (National Institute for Health and Care Excellence), recomenda a TCC como tratamento psicológico de primeira linha para a perturbação de ansiedade generalizada, a perturbação de ansiedade social, a perturbação de pânico e as fobias específicas. A American Psychological Association defende a mesma posição.

O que distingue a TCC de simplesmente falares dos teus problemas é o foco no presente. Não te pede que vasculhes a infância à procura de traumas enterrados. Pede-te que repares no que estás a pensar agora, que testes se esse pensamento corresponde à realidade e que mudes o que fazes a seguir. É nessa passagem, da preocupação passiva à resolução ativa de problemas, que está a força terapêutica.

E, cada vez mais, não é preciso um terapeuta para lhe ter acesso. A investigação que se vai acumulando indica que a TCC autoguiada e a TCC em formato digital são eficazes na ansiedade ligeira a moderada. Segundo uma meta-análise de Andrews et al. (2018), no Journal of Anxiety Disorders, os programas de TCC pela internet tiveram efeitos de magnitude comparável à da terapia presencial em vários quadros de ansiedade. Isto não substitui o apoio profissional nos casos graves, mas significa que as técnicas centrais se aprendem, são práticas e estão ao alcance de qualquer pessoa disposta a praticá-las.

Neste artigo: como funciona, de facto, a TCC, o que diz a investigação sobre a sua eficácia nas diferentes perturbações de ansiedade e como podes começar a aplicar as técnicas centrais (reformulação de pensamentos, experiências comportamentais e exposição) na tua vida. Sem jargão e sem simplificar demasiado: só o que a evidência sustenta e o que podes mesmo usar.

O modelo cognitivo: como a ansiedade se mantém

Para perceber porque é que a TCC funciona, vale a pena perceber primeiro o mecanismo sobre o qual atua. A ansiedade não vive só de sentimentos: vive de um ciclo que se reforça a si próprio, feito de pensamentos, sensações físicas e comportamentos que se alimentam uns aos outros até o sistema inteiro parecer bloqueado.

Aaron Beck, o psiquiatra que desenvolveu o modelo cognitivo na década de 1960, propôs que o sofrimento emocional não é causado diretamente pelos acontecimentos, mas pelas interpretações que as pessoas lhes dão [1]. Uma apresentação no trabalho não é perigosa em si mesma, mas, se o teu pensamento automático for “vou passar uma vergonha e toda a gente vai ver que sou incompetente”, o cérebro reage como se estivesses perante uma ameaça real. O ritmo cardíaco sobe, as mãos transpiram, os músculos ficam tensos: o corpo prepara-se para um perigo que não existe.

Essas sensações físicas tornam-se depois prova do pensamento original. O coração está acelerado, logo algo deve estar mal. Sentes tremores, logo não deves ser capaz. O pensamento cria a sensação, e a sensação confirma o pensamento. Beck chamou-lhes pensamentos automáticos: respostas cognitivas rápidas e involuntárias que parecem factos mas são, na verdade, interpretações, muitas vezes distorcidas.

Depois vem a parte comportamental. Como a situação parece ameaçadora, evita-la. Ligas a dizer que estás doente antes da apresentação, deixas outra pessoa conduzir a reunião, ficas em silêncio quando tinhas algo a dizer. O evitamento traz alívio imediato, a ansiedade desce, e esse alívio reforça a crença de que a situação era mesmo perigosa. Da próxima vez, o limiar para evitar é mais baixo. O mundo fica mais pequeno.

Este ciclo de três partes (pensamento distorcido, ativação física e comportamento de evitamento) é aquilo a que a TCC chama o modelo de manutenção da ansiedade. Explica porque é que a ansiedade não desaparece sozinha, mesmo quando racionalmente sabes que o medo é desproporcionado. Saber que é ansiedade não interrompe o ciclo. É preciso intervir ao nível do pensamento ou do comportamento, idealmente dos dois.

A investigação sustenta este modelo nas várias perturbações de ansiedade. Clark e Wells (1995) demonstraram que a ansiedade social é mantida por um padrão específico de atenção focada em si próprio, autoimagem negativa e ruminação após o acontecimento, que mantém viva a crença na ameaça mesmo depois de a situação temida ter passado sem desastre [2]. Salkovskis (1985) mostrou que a perturbação de pânico é alimentada por interpretações catastróficas de sensações corporais normais: um coração acelerado passa a ser um enfarte, uma tontura passa a ser um desmaio iminente [3]. Na perturbação de ansiedade generalizada, a teoria do evitamento de Borkovec propõe que a própria preocupação crónica funciona como estratégia de evitamento cognitivo, mantendo a pessoa no pensamento verbal abstrato para evitar imagens emocionais mais perturbadoras [4].

Os pormenores variam consoante o quadro, mas a arquitetura é a mesma. Uma distorção do pensamento desencadeia uma resposta de ameaça, a resposta de ameaça gera evitamento, e o evitamento impede a pessoa de aprender que a ameaça foi sobrestimada. A TCC intervém em cada ponto desse ciclo.

O lado cognitivo: identificar e reformular pensamentos ansiosos

O “cognitivo” de terapia cognitivo-comportamental refere-se ao trabalho de apanhar pensamentos distorcidos e confrontá-los com a realidade. Não é pensamento positivo: não se trata de trocar “vou falhar” por “vou ser incrível”, mas de trocar um pensamento distorcido por um pensamento rigoroso, que muitas vezes é menos dramático do que qualquer um dos extremos.

Beck identificou um conjunto de distorções cognitivas comuns, erros sistemáticos de pensamento que enviesam a perceção no sentido da ameaça [1]. Entre as mais relevantes para a ansiedade estão:

Catastrofização. Saltar para o pior desfecho possível. “Se me enganar neste e-mail, vou perder o emprego.” A mente salta do provável para o catastrófico e trata um desfecho pouco provável como quase certo.

Leitura da mente. Partir do princípio de que sabes o que os outros estão a pensar, quase sempre pela negativa. “Toda a gente naquela reunião achou que fiz figura de idiota.” Não tens os dados, mas o pensamento chega com a força de um facto.

Adivinhação do futuro. Prever desfechos negativos com uma certeza falsa. “A entrevista vai correr mal. Bloqueio sempre sob pressão.” A previsão parece a memória de algo que já aconteceu.

Pensamento de tudo ou nada. Ver as situações em termos absolutos, sem meio-termo. “Se não consigo fazer na perfeição, não vale a pena tentar.” A nuance do “suficientemente bom” ou de “uma tentativa razoável” desaparece.

Raciocínio emocional. Usar os sentimentos como prova de crenças. “Sinto ansiedade, logo algo de mau deve estar para acontecer.” A emoção passa a justificar-se a si mesma.

A técnica da TCC para trabalhar estas distorções chama-se reestruturação cognitiva, por vezes designada reformulação de pensamentos. O processo segue uma sequência estruturada. Primeiro, identificas a situação que desencadeou a ansiedade. Depois, escreves o pensamento automático, a interpretação específica, muitas vezes rápida, que provocou a resposta emocional. A seguir, identificas a distorção que está em causa. Por fim, formulas um pensamento alternativo que tenha em conta os factos com mais rigor.

Não se trata de otimismo a todo o custo. Um pensamento bem reformulado pode continuar a reconhecer a dificuldade. A passagem de “vai dar-me uma branca total na apresentação e toda a gente vai achar que não sirvo para nada” para “posso atrapalhar-me num ponto ou noutro, mas domino a matéria e a maioria das pessoas nem vai reparar” não é animadora, é só mais rigorosa. E o rigor, ao que parece, é terapêutico.

A evidência a favor da reestruturação cognitiva é sólida. Uma meta-análise de Cristea et al. (2015), na Clinical Psychology Review, examinou estudos de componentes da TCC e verificou que as intervenções cognitivas reduziram de forma significativa os sintomas de ansiedade, independentemente dos componentes comportamentais [5]. No estudo de Hofmann et al. (2012), as alterações nas cognições negativas mediaram a relação entre a TCC e a melhoria dos sintomas em várias perturbações de ansiedade, o que sugere que mudar padrões de pensamento é um verdadeiro mecanismo de mudança, e não apenas um efeito secundário [6].

Na prática, a dificuldade é que os pensamentos automáticos parecem verdadeiros. Chegam depressa, vêm carregados de emoção e são muitas vezes tão habituais que a pessoa nem os reconhece como pensamentos. Vive-os como realidade. A abordagem estruturada da TCC foi pensada precisamente para tornar esse processo mais lento. Escrever o pensamento no papel (ou numa ferramenta digital) cria distância. Dar nome à distorção retira-lhe parte da autoridade. E formular uma alternativa não exige que acredites nela de imediato, apenas que a consideres como possibilidade. Com o tempo, a balança vai-se inclinando.

O lado comportamental: exposição, experiências e a saída da armadilha do evitamento

O trabalho cognitivo muda a forma como pensas. O trabalho comportamental muda a forma como ages. Na TCC, os dois foram pensados para se reforçarem um ao outro, mas é no lado comportamental que muitas pessoas veem os resultados mais rápidos e mais palpáveis.

A principal técnica comportamental da TCC para a ansiedade é a exposição. O princípio é simples: se o evitamento mantém a ansiedade porque te impede de aprender que o desfecho temido não acontece (ou que se aguenta quando acontece), então enfrentar deliberadamente a situação temida, de forma gradual e estruturada, quebra o ciclo. Aproximas-te daquilo que tens evitado, a ansiedade sobe, e depois acontece algo interessante: desce sozinha. O sistema nervoso aprende que a ameaça foi sobrestimada. Os psicólogos chamam a isto habituação e, mais recentemente, aprendizagem inibitória, a formação de uma memória nova, concorrente, que diz “esta situação é segura” [7].

A exposição não consiste em mergulhares no teu pior medo logo no primeiro dia. Uma terapia de exposição eficaz usa uma hierarquia de medos, uma lista graduada de situações ordenadas pela ansiedade que provocam, do que incomoda um pouco ao que angustia a sério. Começas por baixo e sobes aos poucos, ficando em cada situação o tempo suficiente para a ansiedade atingir o pico e depois ceder naturalmente. Uma pessoa com ansiedade social pode começar por trocar dois dedos de conversa com quem a atende numa loja, passar a fazer uma pergunta num grupo e, mais tarde, chegar a uma apresentação curta.

A evidência a favor da exposição está entre a mais forte de toda a psicoterapia. Craske et al. (2014) publicaram na Behaviour Research and Therapy uma revisão influente, na qual defendem que a exposição funciona não por apagar a memória original do medo, mas por criar uma nova associação inibitória que compete com ela [7]. De acordo com uma revisão Cochrane de Mayo-Wilson et al. (2014), a TCC com exposição foi significativamente mais eficaz do que os grupos de controlo em lista de espera e o placebo em comprimidos na perturbação de ansiedade social, com efeitos que se mantiveram no seguimento [8]. Na perturbação de pânico, Clark et al. (1999) demonstraram que um protocolo de TCC que combina reestruturação cognitiva com exposição interocetiva, isto é, provocar deliberadamente as sensações físicas do pânico num ambiente seguro, levou a taxas de recuperação acima de 80% [9].

Muito próxima da exposição está a experiência comportamental. Enquanto a exposição pergunta “consegues tolerar isto?”, a experiência comportamental pergunta “a tua previsão é mesmo verdadeira?” Formulas uma hipótese específica e testável, como “se eu falar na reunião, as pessoas vão rir-se de mim”, e depois fazes a experiência: falas, observas o que acontece de facto e comparas o resultado com a previsão. Na maior parte das vezes, a catástrofe não se concretiza. E essa experiência vivida pesa mais do que qualquer argumento racional.

Bennett-Levy et al. (2004) defenderam que as experiências comportamentais estão entre as ferramentas mais potentes da TCC precisamente porque geram provas vividas, daquelas que mudam crenças a um nível visceral, e não apenas intelectual [10]. Um estudo de McManus et al. (2012), na Behaviour Research and Therapy, comparou diretamente as experiências comportamentais com a exposição tradicional na ansiedade social e verificou que as experiências reduziram significativamente mais as crenças negativas, o que sugere que atuam através de um mecanismo diferente e possivelmente mais poderoso [11].

A terceira vertente comportamental é o planeamento de atividades, particularmente relevante quando a ansiedade levou ao isolamento e ao desânimo. A ansiedade encolhe-te o mundo. Deixas de fazer coisas que antes te davam satisfação ou te ligavam aos outros, porque o receio antecipado pesa mais do que a motivação. O planeamento de atividades inverte isso: planeias e fazes, de propósito, atividades, mesmo pequenas, que te deem uma sensação de conquista ou de prazer. A lição da TCC é que não é preciso sentires motivação para agir. Ages, e a motivação vem depois.

Em conjunto, estas técnicas comportamentais fazem algo que o trabalho puramente cognitivo não consegue: geram provas novas. Podes reformular um pensamento cem vezes na cabeça, mas, enquanto não entrares na sala, enviares o e-mail ou tiveres a conversa, a crença antiga mantém a força. É no comportamento que a crença encontra a realidade.

Usar a TCC por conta própria: abordagens autoguiadas e digitais

Tradicionalmente, a TCC fazia-se no consultório de um terapeuta, ao longo de 12 a 20 sessões semanais. Esse modelo funciona, e é o que tem mais evidência a seu favor. Mas tem também um problema sério de acesso. No Reino Unido, as listas de espera para a TCC financiada pelo NHS, o serviço público de saúde, ultrapassam com frequência os três meses. Nos Estados Unidos, o custo da terapia privada deixa-a fora do alcance de muita gente. No mundo inteiro, não há, pura e simplesmente, terapeutas com formação em TCC que cheguem para a procura. Um relatório de 2019 da Organização Mundial da Saúde estimou que, nos países de baixo e médio rendimento, a lacuna de tratamento nas perturbações de ansiedade ultrapassa os 70% [12].

Esta lacuna deu origem a muita investigação sobre a TCC autoguiada: programas que ensinam as técnicas centrais através de livros, cadernos de exercícios, apps ou plataformas online, com pouco ou nenhum envolvimento de um terapeuta.

Os resultados são animadores. Uma meta-análise de Cuijpers et al. (2019), na World Psychiatry, examinou a TCC autoguiada pela internet em 53 ensaios clínicos aleatorizados e encontrou efeitos de magnitude moderada a grande nas perturbações de ansiedade, com resultados que se mantiveram no seguimento [13]. Andrews et al. (2018) concluíram que a TCC pela internet foi tão eficaz como a TCC presencial na perturbação de pânico, na ansiedade social e na ansiedade generalizada, embora os autores tenham notado que a adesão era maior quando existia alguma forma de apoio humano, nem que fossem breves e-mails de acompanhamento [14]. As orientações do NICE recomendam hoje a TCC computorizada como intervenção de primeiro passo na perturbação de ansiedade generalizada ligeira a moderada [15].

A TCC autoguiada funciona porque é estruturada. Ao contrário de uma psicoterapia de conversa aberta, a TCC segue uma sequência clara: identificar a situação, apanhar o pensamento, testá-lo, mudar o comportamento. Essa estrutura adapta-se bem a formatos escritos e digitais. Um caderno de exercícios pode guiar-te num registo de pensamentos. Uma app pode sugerir-te que anotes o pensamento automático, escolhas a distorção e formules uma alternativa. Para aplicar a técnica não é preciso um terapeuta: é preciso prática.

Dito isto, a TCC autoguiada tem limites. Resulta melhor na ansiedade ligeira a moderada. Se os teus sintomas forem graves, se a ansiedade te estiver a impedir de trabalhar, de manter relações ou de sair de casa, o apoio profissional é importante, e as ferramentas de autoajuda devem complementá-lo, não substituí-lo. A investigação mostra também que o envolvimento conta: quem usa as técnicas com regularidade vê resultados; quem lê sobre elas e não as pratica, em geral, não vê [13].

Os pontos de partida são mais simples do que a maioria das pessoas imagina. Não é preciso virares a vida do avesso. Basta uma prática pequena e fácil de repetir:

Começa pelos registos de pensamentos

Quando reparares que a ansiedade está a subir, escreve a situação, o pensamento automático, a distorção de que suspeitas e uma interpretação alternativa. Exteriorizar o pensamento, tirá-lo da cabeça e pô-lo no papel ou no ecrã, já é uma intervenção cognitiva. Cria a distância que te permite avaliar em vez de apenas reagir.

Faz pequenas experiências comportamentais

Escolhe uma situação que tens andado a evitar. Prevê o que achas que vai acontecer, avança e compara a previsão com a realidade. No início, escolhe algo com pouco em jogo. O objetivo não é provar que não tens medo, é reunir provas de que as tuas estimativas de ameaça são sistematicamente demasiado altas.

Constrói uma hierarquia de medos

Faz uma lista das situações que te desencadeiam ansiedade, da menos para a mais angustiante. Classifica cada uma numa escala de 0 a 10. Começa a aproximar-te das que estão no fundo da lista e fica na situação o tempo suficiente para a ansiedade atingir o pico e descer naturalmente. Sobe na lista à medida que cada passo se torna suportável.

Acompanha os padrões ao longo do tempo

Com ansiedade, é difícil ver o progresso no momento. Manter um registo diário breve do teu humor, dos principais pensamentos ansiosos e das situações que enfrentaste ou evitaste cria um histórico que mostra a mudança ao longo de semanas e meses, uma mudança que de outro modo talvez nem notasses.

Nada disto exige perfeição. Falhar um dia não obriga a recomeçar o processo. Uma semana má não apaga um mês bom. A TCC é uma competência e, como qualquer competência, melhora com a repetição, não com a intensidade.

O que a TCC não faz, e porque é que isso não é um problema

A TCC não é uma cura para a ansiedade, e seria desonesto apresentá-la como tal. A ansiedade é uma emoção humana normal, com base biológica. Evoluiu para te manter com vida. O objetivo da TCC não é eliminar a ansiedade, mas impedir que seja ela a mandar na tua vida: reduzir-lhe a intensidade, encurtar-lhe a duração e aliviar o domínio que tem sobre as tuas decisões.

A TCC também não resulta de igual forma para toda a gente. Algumas pessoas respondem melhor a outras abordagens terapêuticas, como a terapia de aceitação e compromisso, a terapia psicodinâmica ou a medicação. Uma meta-análise de Carpenter et al. (2018), no Journal of Consulting and Clinical Psychology, concluiu que, embora a TCC tenha superado os grupos de controlo nas várias perturbações de ansiedade, as taxas de resposta individuais variaram consideravelmente, e cerca de 40 a 50% dos participantes não atingiram a remissão completa apenas com a TCC [16]. Isso não é um fracasso da TCC: lembra apenas que a ansiedade é complexa, individual e, por vezes, pede uma combinação de abordagens.

O que a TCC faz, e de forma fiável, é dar às pessoas um modelo para compreenderem a própria ansiedade e ferramentas práticas para intervirem no ciclo que a mantém. Transforma uma sensação sem forma e avassaladora em algo específico, com que se pode trabalhar. E, para muitas pessoas, basta essa passagem, de “há algo de errado comigo e não posso fazer nada” para “consigo ver o padrão e sei como o interromper”, para tudo mudar.

Esta conclusão mantém-se há décadas. A TCC funciona na ansiedade, não por ser mágica, mas porque incide sobre os mecanismos específicos que mantêm a ansiedade (os pensamentos distorcidos, os comportamentos de evitamento e os hábitos de procura de segurança) e os substitui por algo mais rigoroso e mais funcional.

Não precisas de começar com um terapeuta, nem de perceber o modelo na perfeição. Podes começar com um registo de pensamentos, com uma pequena experiência, com um momento em que reparas no pensamento automático, fazes uma pausa e te perguntas: isto é mesmo verdade?

É nessa pausa que a TCC começa. E, para muita gente, é aí que as coisas começam a mudar.

Fontes

  1. Beck, A.T. (1976), “Cognitive Therapy and the Emotional Disorders”; Beck, A.T. et al. (1985), “Anxiety Disorders and Phobias: A Cognitive Perspective”, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  2. Clark, D.M. & Wells, A. (1995), “A Cognitive Model of Social Phobia”, em Social Phobia: Diagnosis, Assessment, and Treatment, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  3. Salkovskis, P.M. (1985), “Obsessional-Compulsive Problems: A Cognitive-Behavioural Analysis”; Salkovskis, P.M. (1991), modelo cognitivo do pânico, Behaviour Research and Therapy, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  4. Borkovec, T.D. et al. (2004), “The Nature, Functions, and Origins of Worry”; teoria do evitamento aplicada à preocupação, em Generalized Anxiety Disorder: Advances in Research and Practice, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  5. Cristea, I.A. et al. (2015), “The Effect of Cognitive Bias Modification and Cognitive Behavioural Therapy Components”, Clinical Psychology Review, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  6. Hofmann, S.G. et al. (2012), “The Effect of Cognitive Behaviour Therapy on Cognition in Anxiety Disorders: A Meta-Analytic Review”, Journal of Cognitive Psychotherapy, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  7. Craske, M.G. et al. (2014), “Maximizing Exposure Therapy: An Inhibitory Learning Approach”, Behaviour Research and Therapy, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  8. Mayo-Wilson, E. et al. (2014), “Psychological and Pharmacological Interventions for Social Anxiety Disorder in Adults: A Systematic Review and Network Meta-Analysis”, Cochrane Database / Lancet Psychiatry, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  9. Clark, D.M. et al. (1999), “Cognitive Therapy for Panic Disorder: A Randomised Controlled Trial”, Journal of Consulting and Clinical Psychology, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  10. Bennett-Levy, J. et al. (2004), “Oxford Guide to Behavioural Experiments in Cognitive Therapy”, Oxford University Press, global.oup.com
  11. McManus, F. et al. (2012), “An Investigation of the Accuracy of and Confidence in Self-Image as a Predictor of Social Anxiety”; comparação entre experiências comportamentais e exposição, Behaviour Research and Therapy, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  12. World Health Organization (2019), “Mental Health Atlas 2017”; estimativas da lacuna de tratamento nas perturbações de ansiedade, who.int
  13. Cuijpers, P. et al. (2019), “Internet and Mobile Interventions for Depression and Anxiety: A Meta-Analysis”, World Psychiatry, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  14. Andrews, G. et al. (2018), “Computer Therapy for the Anxiety and Depression Disorders Is Effective, Acceptable and Practical Health Care”, Journal of Anxiety Disorders, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  15. NICE (2011, atualizada em 2020), “Generalised Anxiety Disorder and Panic Disorder in Adults: Management”, Clinical Guideline CG113, nice.org.uk
  16. Carpenter, J.K. et al. (2018), “Cognitive Behavioral Therapy for Anxiety and Related Disorders: A Meta-Analysis of Randomized Placebo-Controlled Trials”, Journal of Consulting and Clinical Psychology, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov

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