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Ansiedade na geração Z: porque é que esta é a geração mais ansiosa de sempre

Se nasceste entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2010, é bem provável que a ansiedade não seja para ti um conceito abstrato. É uma coisa que sentes no peito ao domingo à noite. É a razão pela qual reescreves uma mensagem quatro vezes antes de a enviares. É o ruído de fundo que nunca se desliga por completo, mesmo quando, objetivamente, não há nada de errado.

Não é imaginação tua, e os dados não deixam dúvidas: a geração Z é a mais ansiosa de que há registo, e por larga margem.

O inquérito Stress in America, da American Psychological Association (APA), tem mostrado, ano após ano, que os adultos entre os 18 e os 27 anos referem os níveis mais elevados de stress e ansiedade de todas as faixas etárias, e 90% apontam a saúde mental como uma preocupação importante [1]. No Reino Unido, os dados do NHS Digital mostram que a taxa de prováveis perturbações mentais entre os jovens dos 17 aos 19 anos subiu de um em cada dez em 2017 para um em cada quatro em 2022 [2]. E, num inquérito global da Gallup, de 2023, eram os jovens dos 15 aos 24 anos que referiam os níveis mais baixos de bem-estar emocional de todas as faixas etárias, em 142 países [3].

Não são pequenas oscilações. Representam uma mudança profunda no ponto de partida emocional de uma geração inteira. E as explicações do costume (“todas as gerações acham que a sua é a que está pior” ou “os jovens sempre foram dramáticos”) não resistem ao confronto com os dados: são diferentes as medidas clínicas, a gravidade e a idade em que tudo começa.

Então, o que mudou? Não há uma resposta única. O que há é uma colisão de forças que nenhuma geração anterior enfrentou em simultâneo: a vida social reconfigurada pelos smartphones e pelas redes sociais, uma sucessão de crises globais em fases decisivas do desenvolvimento, uma economia que fez com que os marcos tradicionais da vida adulta pareçam inalcançáveis e uma cultura que fala de saúde mental mais do que nunca mas que, em termos estruturais, talvez faça menos por ela.

Nenhuma destas forças atua isoladamente. As redes sociais não causam ansiedade como um vírus causa uma constipação. A precariedade económica não funciona como um interruptor. Mas, sobrepostas durante a adolescência e o início da idade adulta (precisamente os anos em que o cérebro é mais sensível à ameaça social e está a construir a sua arquitetura de resposta ao stress), criam condições sem precedente histórico.

O resto deste artigo analisa de perto o que a investigação diz, de facto, sobre as razões da ansiedade da geração Z. Sem opiniões a quente nem pânicos morais. Só a evidência: o que está na origem, o que a agrava e o que, segundo a literatura, ajuda.

A geração do smartphone: o que a investigação mostra de facto sobre o tempo de ecrã

É difícil ignorar a coincidência no tempo. O ponto de viragem mais acentuado nos dados sobre ansiedade na adolescência coincide quase na perfeição com a adoção em massa dos smartphones. Nos Estados Unidos, a percentagem de adolescentes com smartphone passou de cerca de 40% em 2012 para mais de 90% em 2016 [4]. No mesmo período, as taxas de depressão, ansiedade e autolesão entre adolescentes começaram a subir a um ritmo que apanhou os investigadores de surpresa.

Jean Twenge, psicóloga da Universidade Estadual de San Diego, foi das primeiras a mapear esta sobreposição. Ao analisar dados do inquérito Monitoring the Future, que abrange mais de um milhão de adolescentes norte-americanos, a sua equipa concluiu que os adolescentes que passavam mais de três horas por dia em dispositivos eletrónicos tinham uma probabilidade 34% superior de apresentar pelo menos um fator de risco de suicídio do que os que passavam menos de uma hora [5]. A associação manteve-se depois de consideradas as variáveis demográficas e as tendências já existentes.

Mas o tempo de ecrã, enquanto variável única, é um instrumento pouco fino, e a investigação que o trata assim tende a encontrar efeitos modestos. Um estudo de grande escala publicado na Nature Human Behaviour por Orben e Przybylski analisou dados de mais de 350.000 adolescentes e verificou que a associação entre o uso de tecnologia digital e o bem-estar era negativa mas minúscula: explicava menos de meio por cento da variação nos resultados [6]. Usar óculos e comer batatas estavam associados a efeitos de dimensão semelhante. Os autores defenderam que o tempo total de ecrã é uma medida demasiado grosseira para ser útil.

E têm razão. Ver um documentário sobre a natureza no telemóvel e fazer scroll no Instagram às duas da manhã são ambos “tempo de ecrã”, mas não são a mesma experiência. A investigação que olha com mais pormenor para o que as pessoas fazem no ecrã conta uma história mais coerente.

Um estudo de 2019 publicado na JAMA Pediatrics acompanhou mais de 3.800 adolescentes canadianos ao longo de quatro anos e mostrou que o aumento do uso de redes sociais estava especificamente associado ao aumento de sintomas depressivos, mesmo tendo em conta a saúde mental no início do estudo [7]. O mesmo não aconteceu com o aumento do tempo de televisão, de videojogos ou de uso geral do computador. O efeito não vinha do total de horas de ecrã, mas do que se fazia nele.

O que torna as redes sociais qualitativamente diferentes? Várias coisas ao mesmo tempo. Fornecem um fluxo contínuo de material para comparação social. Dão reforço intermitente através de gostos e comentários, o que ativa as mesmas vias dopaminérgicas que as slot machines [8]. Roubam tempo ao sono, de que o cérebro em desenvolvimento depende para a regulação emocional. E prolongam a arena social para um espaço que nunca fecha, onde os conflitos, as hierarquias de estatuto e o medo de ficar de fora funcionam a toda a hora.

Um ensaio clínico aleatorizado publicado no Journal of Social and Clinical Psychology em 2018 testou isto diretamente. Investigadores da Universidade da Pensilvânia distribuíram 143 estudantes universitários por dois grupos: um limitou o uso de redes sociais a 30 minutos por dia, o outro manteve o uso habitual. Ao fim de três semanas, no grupo que reduziu o uso, a solidão e a depressão tinham diminuído de forma significativa, com os efeitos mais fortes entre quem tinha começado com os níveis mais elevados de sintomas depressivos [9].

Depois, há o sono. A relação entre o uso do smartphone e as perturbações do sono em adolescentes é um dos resultados mais sólidos desta área. Uma meta-análise publicada na JAMA Pediatrics, que abrangeu mais de 125.000 crianças, encontrou uma associação significativa entre o acesso a dispositivos multimédia à hora de deitar e sono insuficiente, má qualidade do sono e sonolência diurna excessiva [10]. A privação de sono, por sua vez, é um dos preditores mais fiáveis de ansiedade. A amígdala fica até 60% mais reativa a estímulos negativos depois de uma única noite mal dormida [11]. Para uma geração que cresceu com o telemóvel na almofada, não é um pormenor.

Nada disto significa que os smartphones sejam a única causa. A evidência não sustenta a narrativa simples de que “os telemóveis estragaram os miúdos”. Mas sustenta algo mais específico: a forma particular como os smartphones reorganizaram a vida social (sempre ligada, carregada de comparação, a roubar horas de sono) criou um ambiente psicológico bem mais difícil de gerir para cérebros em desenvolvimento.

As redes sociais e a armadilha da comparação

Os seres humanos sempre se compararam uns com os outros. É um comportamento profundamente enraizado. Leon Festinger formalizou-o em 1954 com a teoria da comparação social, segundo a qual as pessoas avaliam as suas capacidades e opiniões medindo-as em relação às dos outros, sobretudo quando não há critérios objetivos [12]. Durante a maior parte da história humana, o grupo de pessoas disponíveis para comparação era pequeno: a família, os colegas de turma, os vizinhos. As referências eram locais e mais ou menos ajustadas às circunstâncias reais de cada um.

As redes sociais acabaram com esses limites. O universo de comparação é agora, na prática, infinito, e está enviesado num só sentido. O feed típico do Instagram é uma seleção cuidada de melhores momentos: pontos altos, aparências com filtro e sucesso encenado. O algoritmo não destaca o que é mediano. Destaca o que gera mais interação, e isso tende a ser conteúdo aspiracional, provocador ou ambas as coisas.

O custo psicológico disto está bem documentado. Uma revisão sistemática publicada no International Journal of Environmental Research and Public Health em 2022, que abrangeu 13 estudos com mais de 35.000 participantes, encontrou, estudo após estudo, uma associação entre a comparação social alimentada pelas redes sociais e níveis mais elevados de ansiedade e depressão, em particular entre mulheres jovens [13]. A relação era mais forte na comparação ascendente, ou seja, quando te medes com pessoas que te parecem mais atraentes, mais bem-sucedidas ou com mais vida social.

O mecanismo não tem nada de misterioso. Quando te comparas com uma imagem cuidadosamente construída da vida de outra pessoa, estás a comparar a tua experiência interior, sem edição, com a fachada editada dela. Conheces as tuas dúvidas, os teus fracassos, os dias maus e os ângulos pouco favoráveis. Dos outros, não vês nada disso. O resultado é uma distorção sistemática: os outros parecem todos estar melhor do que estão, e tu pareces estar pior. Multiplica isto por dezenas de comparações por hora, todos os dias, desde os doze anos, e o efeito acumulado na forma como te vês é considerável.

A imagem corporal é um dos pontos onde a pressão mais se nota. Um estudo interno da Meta, divulgado numa fuga de informação em 2021 e depois noticiado pelo Wall Street Journal, indicava que 32% das raparigas adolescentes diziam que, quando se sentiam mal com o corpo, o Instagram as fazia sentir pior [14]. Os próprios investigadores da empresa concluíram que o Instagram estava a agravar problemas de imagem corporal numa proporção significativa das utilizadoras jovens. Um estudo publicado na Body Image mostrou que bastavam 10 minutos a navegar no Instagram para aumentar a insatisfação corporal, em comparação com navegar num site neutro, e que o efeito era mediado por comparações relacionadas com a aparência [15].

A aparência é apenas um dos eixos. Desempenho académico, vida social, etapas da carreira, viagens, relações: todas as dimensões da vida estão hoje sujeitas a uma comparação pública e contínua. Um estudo de 2021 publicado na Computers in Human Behavior associou a comparação social nas redes sociais a mais ansiedade, através de um mecanismo de inadequação percebida: a sensação de que a própria vida não está à altura do que se vê online [16]. O efeito era particularmente acentuado em quem fazia um uso passivo das redes: scroll e observação, em vez de publicar e interagir.

A questão do consumo passivo é importante. Segundo uma investigação da Universidade do Michigan, o uso passivo do Facebook (percorrer o feed) previa quebras no bem-estar subjetivo, ao contrário do uso ativo (publicar, comentar, trocar mensagens) [17]. Ora, a maior parte do uso das redes sociais é passiva: a maioria das pessoas faz muito mais scroll do que publicações. O modo dominante de utilização é precisamente o que está mais ligado a resultados negativos.

Há também o que as redes sociais fazem à experiência de ficar de fora. O medo de ficar de fora, o FOMO (fear of missing out), não é uma emoção nova, mas as redes sociais deram-lhe um feed de imagens. Antes, podias desconfiar que os teus amigos estavam juntos sem ti. Agora vês isso acontecer em tempo real na story de alguém. Um estudo publicado na Motivation and Emotion verificou que o FOMO mediava a relação entre o uso de redes sociais e o afeto negativo, e que era particularmente elevado em pessoas que já partiam de níveis mais altos de ansiedade [18]. O cérebro ansioso já anda à procura de sinais de exclusão social. As redes sociais põem-lhe uma lupa na mão.

Para a geração Z, isto não é um extra da vida social. É a infraestrutura da vida social. As amizades mantêm-se em conversas de grupo. O estatuto negoceia-se em seguidores e interações. A identidade constrói-se em público, num espaço onde a audiência é imprevisível e a reação é imediata. A armadilha da comparação não é um buraco onde se cai. É o próprio chão.

A economia, o clima e a crise permanente

As redes sociais não são a única força estrutural a pesar sobre esta geração. A geração Z chegou à idade adulta durante uma sucessão de crises globais que se seguiram umas às outras, cada uma na fase do desenvolvimento em que o cérebro é mais sensível à ameaça e está a afinar o seu modelo de como o mundo funciona.

A começar pela economia. Na maioria dos países desenvolvidos, o custo da habitação em relação ao rendimento praticamente duplicou desde meados dos anos 1990. No Reino Unido, o rácio entre o preço médio das casas e os rendimentos chegou a 8,3 em 2023, quando era de 3,5 em 1997 [19]. Nos Estados Unidos, o preço mediano das casas subiu três vezes mais depressa do que o salário mediano nas últimas duas décadas. A dívida estudantil norte-americana ultrapassou 1,7 biliões de dólares em 2023, e cada estudante devia, em média, mais de 37.000 dólares no final do curso [20]. Os marcos tradicionais da vida adulta (comprar casa, constituir família, alcançar a independência financeira) não desapareceram enquanto aspiração, mas ficaram, na prática, fora do alcance de uma proporção crescente de jovens sem património herdado.

O impacto psicológico disto não é especulação. Um estudo de 2022 publicado na Social Science & Medicine identificou a insegurança económica percebida como um preditor independente e significativo de ansiedade e depressão em jovens adultos, mesmo depois de considerados o rendimento atual e a situação de emprego [21]. Não é só uma questão de ter pouco dinheiro. É a convicção de que o esforço não se vai traduzir em estabilidade. Quando a ligação entre trabalho árduo e um futuro seguro parece quebrada, o resultado é um receio crónico, de baixa intensidade, que não se prende a nenhum acontecimento em particular, mas tinge tudo.

Depois, há o clima. Um estudo de 2021 publicado na The Lancet Planetary Health inquiriu 10.000 jovens dos 16 aos 25 anos em dez países: 59% estavam muito ou extremamente preocupados com as alterações climáticas. Quarenta e cinco por cento disseram que o que sentiam em relação às alterações climáticas afetava negativamente o seu dia a dia. Mais de metade referiu sentir tristeza, ansiedade, raiva, impotência e culpa [22]. O termo “ecoansiedade” entrou no discurso clínico não por ser um diagnóstico formal, mas porque o padrão era demasiado generalizado para ser ignorado.

A ansiedade climática é estruturalmente diferente da maioria das outras formas de ansiedade. A maior parte das perturbações de ansiedade envolve um desfasamento entre a ameaça percebida e a ameaça real: o cérebro sobrestima o perigo. A ansiedade climática é uma resposta racional a uma ameaça real, em curso e a agravar-se, que cada pessoa, sozinha, quase nada pode fazer para resolver. Isso torna-a resistente à reformulação cognitiva habitual. Não se pode simplesmente contestar o pensamento “o planeta está a aquecer e os sistemas que o deviam impedir estão a falhar”, porque o pensamento é verdadeiro.

Junta-se a isto a pandemia de COVID-19, que chegou numa fase decisiva da socialização da geração Z. Adolescentes e jovens adultos perderam anos de convívio presencial, de momentos marcantes e de rotina. Uma meta-análise publicada na JAMA Pediatrics em 2021 estimou que a prevalência global de sintomas clinicamente elevados de depressão e ansiedade nos jovens praticamente duplicou durante a pandemia, de cerca de 12% antes dela para aproximadamente 25% [23]. Alguns desses números recuaram entretanto. Muitos não.

O quadro geral é o de uma geração que cresceu a ver a crise financeira de 2008 corroer a estabilidade dos pais, entrou no mercado de trabalho durante ou depois de uma pandemia, herdou uma economia em que o essencial lhe sai demasiado caro e enfrenta uma crise ambiental que as gerações anteriores, reconhecidamente, não conseguiram evitar. Cada um destes fatores é uma fonte legítima de stress. Juntos, criam uma sensação difusa de precariedade (a impressão de que o chão não é firme) que não se vê como desligar e que, a esta escala, não tem precedente histórico.

Porque é que ter consciência não chega

Há uma dimensão em que a geração Z está claramente à frente de todas as anteriores: a literacia em saúde mental. Esta geração fala de ansiedade abertamente. Partilha linguagem de diagnóstico nas redes sociais. Desafia o estigma. Conhece o vocabulário (luta ou fuga, distorções cognitivas, estilos de vinculação, regulação do sistema nervoso) de uma forma que seria impensável há vinte anos.

E, no entanto, as taxas continuam a subir. Se a consciência bastasse, a curva devia estar a descer. Não está.

Não é uma contradição. É um limite bem documentado do insight. Saber que tens ansiedade não desativa os circuitos neuronais que a produzem. Perceber que a tua amígdala está a dar falsos alarmes não a faz parar. Um estudo publicado na Behaviour Research and Therapy concluiu que a compreensão intelectual dos mecanismos da ansiedade não tinha efeito significativo na redução da ansiedade na ausência de mudança de comportamento [24]. O insight é apenas o ponto onde o trabalho começa.

Há ainda outra complicação. A cultura de sensibilização para a saúde mental, sobretudo nas redes sociais, confunde por vezes identificar com tratar. Dar nome à ansiedade passa a ser o ponto de chegada, e não o início de um processo. Um artigo de 2023 publicado na revista New Ideas in Psychology alertou para a possibilidade de a popularização da linguagem clínica nas redes sociais estar a contribuir para uma inflação de diagnósticos, ao incentivar as pessoas a interpretar oscilações emocionais normais em termos clínicos, sem acesso às intervenções estruturadas que dão valor aos modelos clínicos [25].

Nada disto significa que a consciência não valha nada. Reduzir o estigma é importante. Tornar mais fácil pedir ajuda é importante. Mas consciência sem ação é como ler um mapa sem sair do sítio. O que muda a ansiedade não é saber coisas sobre ela. É fazer alguma coisa em relação a ela, com regularidade, com técnicas que foram testadas e que comprovadamente funcionam.

O que funciona, segundo a evidência

A boa notícia, e vale a pena parar um momento nela, é que a ansiedade é um dos problemas de saúde mental mais tratáveis. As intervenções que funcionam estão bem estabelecidas, foram amplamente replicadas e, em muitos casos, são acessíveis sem terapeuta.

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) continua a ser a referência. Uma meta-análise de 2018 publicada no Psychological Bulletin, que abrangeu mais de 300 ensaios, confirmou que a TCC tem efeitos grandes e duradouros nas perturbações de ansiedade, com melhores resultados do que os grupos em lista de espera, as condições placebo e a maioria das terapias alternativas [26]. O mecanismo central é simples: identificar os padrões de pensamento que amplificam a ansiedade, confrontá-los com os factos e, aos poucos, substituir o evitamento pela aproximação. Não ensina a pensar positivo: ensina a pensar com rigor.

Para a geração Z em particular, a TCC em formato digital é promissora. Segundo uma meta-análise publicada no Journal of Medical Internet Research, a TCC pela internet obtinha tamanhos de efeito comparáveis aos da terapia presencial nas perturbações de ansiedade, com vantagens adicionais: custo mais baixo, ausência de listas de espera e acesso a partir do telemóvel [27]. Isto conta para uma geração que se sente mais à vontade com ferramentas digitais do que a marcar consulta com o médico de família.

A respiração controlada é outra intervenção com evidência sólida e sem qualquer barreira de acesso. A respiração lenta e ritmada, a cerca de seis respirações por minuto, ativa o sistema nervoso parassimpático através do nervo vago e contraria diretamente a resposta de luta ou fuga. Uma revisão sistemática publicada na Frontiers in Human Neuroscience concluiu que a respiração lenta reduzia de forma significativa a ansiedade, os níveis de cortisol e a ativação simpática em vários estudos [28]. Funciona em minutos, não exige equipamento e dá para fazer no autocarro.

As técnicas de ancoragem, exercícios que redirecionam a atenção para o que os sentidos captam no momento presente, são eficazes na ansiedade aguda e no pânico. A técnica 5-4-3-2-1, que consiste em nomear cinco coisas que vês, quatro em que podes tocar, três que ouves, duas que cheiras e uma que saboreias, interrompe o ciclo de ruminação ao obrigar o cérebro a processar dados sensoriais concretos em vez de ameaças abstratas. Um estudo publicado no Journal of Clinical Psychology mostrou que a ancoragem sensorial reduzia significativamente o mal-estar em participantes com episódios de ansiedade aguda [29].

O registo de humor, a prática simples de anotar como te sentes a intervalos regulares, desenvolve o autoconhecimento que transforma um mal-estar vago em padrões identificáveis. Uma investigação publicada no Journal of Personality and Social Psychology verificou que a nomeação de emoções (affect labelling), ou seja, pôr um nome naquilo que se sente, reduzia a ativação da amígdala, o que sugere que traduzir os sentimentos em palavras tem um efeito regulador direto no cérebro [30]. Com o tempo, o registo revela gatilhos, padrões e tendências que são invisíveis no momento mas evidentes nos dados.

O diário de gratidão, quando feito sem positividade forçada, também tem mostrado benefícios em sucessivos estudos. Uma meta-análise publicada no Journal of Happiness Studies concluiu que as intervenções de gratidão traziam melhorias pequenas mas fiáveis no bem-estar e reduziam os sintomas depressivos [31]. O segredo está em ser concreto: escrever “sinto gratidão pela conversa que tive esta manhã com um amigo” é mais eficaz do que “sinto gratidão pelos meus amigos”. A prática não funciona por negar as experiências negativas: funciona porque alarga o olhar, de modo a incluir o que está a correr bem a par do que não está.

Nenhuma destas técnicas exige diagnóstico, nem lista de espera, nem que estejas em crise para começares. A evidência sustenta um uso preventivo, como práticas diárias e não como resposta de emergência. Usadas com regularidade, recalibram aos poucos o sistema de deteção de ameaças do cérebro, e a ansiedade, quando chega, já não parte com tanto avanço.

A geração Z tem a consciência, a linguagem e a disponibilidade para falar. O que falta é juntar essa consciência às ferramentas que, segundo a investigação, funcionam de facto, e usá-las não uma vez, mas com regularidade. É para aí que a evidência aponta, e é aí que as coisas começam a mudar.

Fontes

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  2. NHS Digital, “Mental Health of Children and Young People in England” (2017, 2020, 2022), digital.nhs.uk
  3. Gallup, “Global Emotions Report” (2023), gallup.com
  4. Pew Research Center, “Teens, Social Media & Technology” (dados de tendência de 2012–2018), pewresearch.org
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