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TCC e TCD: qual é a diferença e quando é que cada uma ajuda de facto?

Tanto a TCC como a TCD são terapias psicológicas estruturadas, assentes em competências e apoiadas por investigação sólida. Ambas são ensinadas por módulos, propõem prática entre sessões e encaram a emoção como algo com que podes aprender a lidar, e não como algo que simplesmente te acontece. Ainda assim, fazem perguntas fundamentalmente diferentes quando estás a passar um mau bocado. A TCC pergunta: que pensamento está por detrás deste sentimento, e corresponde à realidade? A TCD pergunta: como atravessar este momento sem piorar as coisas? Perceber essa distinção é muito mais útil do que decorar siglas.

O modelo da TCC: pensamentos, sentimentos e comportamento num ciclo

A terapia cognitivo-comportamental foi desenvolvida pelo psiquiatra Aaron Beck na década de 1960, inicialmente como tratamento para a depressão. A ideia central de Beck era que o sofrimento psicológico não é causado pelos acontecimentos em si, mas pelo significado que lhes atribuímos: os pensamentos automáticos e as crenças de fundo que esses acontecimentos desencadeiam. [1]

O modelo da TCC descreve um ciclo: uma situação ativa um pensamento automático (“Cometi um erro, logo sou incompetente”), o pensamento gera uma emoção (vergonha, ansiedade) e a emoção leva a um comportamento (evitamento, procura de tranquilização), que acaba por reforçar a crença original. A terapia passa por identificar o pensamento, examinar as provas a favor e contra e construir uma alternativa mais equilibrada.

A reestruturação cognitiva, o processo de identificar e pôr à prova padrões de pensamento distorcidos, é a técnica central. Estas distorções têm nomes próprios: catastrofização, pensamento de tudo ou nada, leitura da mente, raciocínio emocional, entre outras. Dar nome ao padrão já é, por si só, um passo para ele perder força. [2]

A TCC apoia-se também bastante em experiências comportamentais e na exposição: testar deliberadamente as previsões temidas em vez de as evitar. A evidência de ensaios clínicos aleatorizados e de meta-análises coloca sistematicamente a TCC entre os tratamentos psicológicos mais eficazes para as perturbações de ansiedade e a depressão. [3] Para veres mais de perto como a TCC se aplica especificamente à ansiedade, lê o nosso artigo TCC para a ansiedade: como funciona a terapia cognitivo-comportamental.

O modelo da TCD: dialética, validação e os quatro módulos de competências

A terapia comportamental dialética foi desenvolvida pela psicóloga Marsha Linehan no final da década de 1980, originalmente como tratamento para a perturbação de personalidade borderline e para a ideação e os comportamentos suicidas crónicos, uma população em que a TCC convencional, por si só, tinha mostrado uma eficácia limitada. [4] A palavra “dialética” refere-se à tensão central que a TCD mantém: aceitares quem és neste momento e, ao mesmo tempo, comprometeres-te com a mudança. Nenhum dos polos basta por si só.

Na forma clínica completa, a TCD inclui terapia individual, treino de competências em grupo, acompanhamento por telefone e equipas de consultoria para terapeutas. A componente de treino de competências está organizada em quatro módulos:

A evidência a favor da TCD completa é mais forte na perturbação de personalidade borderline, em que reduz significativamente a autolesão e o comportamento suicida. [5] A investigação também apoia a utilização da TCD nas perturbações do comportamento alimentar e nas perturbações por uso de substâncias. Já a aplicação a dificuldades de ansiedade e de humor em populações não clínicas está menos estudada, o que convém ter em conta ao avaliar ferramentas de autoajuda.

A principal diferença na prática

Num momento de calma, a reestruturação cognitiva da TCC é muito eficaz. Podes deter-te num pensamento, examinar as provas, considerar outras interpretações e escrever uma resposta mais equilibrada. O córtex pré-frontal, a parte do cérebro envolvida no raciocínio e na avaliação, está disponível para isso.

Num momento agudo de grande sofrimento, esse processo muitas vezes encrava. Quando o sistema nervoso está em sobrecarga, o raciocínio abstrato torna-se difícil. Lembrares-te de que o teu pensamento é uma distorção cognitiva pode até fazer sentido em teoria, mas adiantar muito pouco na prática. É esta a lacuna que as competências de tolerância ao mal-estar da TCD foram criadas para preencher: não mudar o pensamento, mas reduzir o nível de ativação da pessoa o suficiente para que consiga funcionar, tomar decisões seguras e evitar comportamentos impulsivos que criariam mais problemas. [4]

As competências TIPP atuam em parte através da fisiologia. A respiração lenta e ritmada, sobretudo a um ritmo de cerca de 5,5 segundos a inspirar e 5,5 segundos a expirar, está associada a um aumento da variabilidade da frequência cardíaca. [6] Pensa-se que a técnica da água fria (mergulhar a cara em água fria) ativa o reflexo de mergulho, o que baixa a frequência cardíaca. São alavancas biológicas, não cognitivas. O objetivo é mudar primeiro o estado do corpo, para que a mente o possa acompanhar.

A técnica de ancoragem 5-4-3-2-1 é uma ferramenta de tolerância ao mal-estar que redireciona a atenção para o ambiente sensorial imediato: cinco coisas que vês, quatro que ouves, e assim por diante. Não exige que mudes nenhuma crença. Pede apenas que ponhas a atenção noutro sítio que não a espiral de pensamentos. Para saberes mais sobre como funciona a ancoragem, lê o nosso artigo Técnicas de ancoragem: o que são e como acalmam a ansiedade.

Porque é que as competências da TCD saíram do contexto original

A TCD foi desenvolvida para uma população clínica específica e grave. Os módulos de competências, porém, descrevem experiências emocionais humanas que não são exclusivas de nenhum diagnóstico. A dificuldade em tolerar o mal-estar, a reatividade emocional e o impulso de fazer algo precipitado quando tudo parece ser de mais são experiências que muita gente reconhece, quer cumpra quer não algum critério clínico.

É por isso que as técnicas de tolerância ao mal-estar, em particular, foram amplamente adotadas em protocolos transdiagnósticos, em contextos de apoio em crise e em recursos de autoajuda. Clínicos e investigadores usam muitas vezes expressões como “inspirado na TCD” ou “derivado da TCD” para descrever este tipo de empréstimo: reconhecem a origem e deixam claro que competências isoladas não equivalem ao tratamento clínico completo. É uma distinção importante, e fazê-la é uma questão de honestidade.

O que as apps de autoajuda conseguem e não conseguem fazer

As apps e os materiais de autoajuda podem ensinar técnicas derivadas da TCC, como a reestruturação cognitiva e a ativação comportamental, e técnicas derivadas da TCD, como a ancoragem e a respiração ritmada. Podem lembrar-te de praticar com regularidade, ajudar-te a reparar em padrões nos teus próprios dados ao longo do tempo e pôr ferramentas estruturadas ao teu alcance entre sessões de terapia formal, ou em vez delas.

O que não conseguem é reproduzir a relação terapêutica, fazer uma avaliação clínica ou oferecer o pacote completo de tratamento da TCD. A investigação sobre ferramentas digitais de saúde mental ainda está em desenvolvimento; a evidência sobre intervenções através de apps é promissora, mas consideravelmente mais escassa do que a da terapia presencial. [7] Uma app não substitui os cuidados profissionais quando os cuidados profissionais são necessários.

Onde entra o MoodFire

O MoodFire é uma app de autoajuda baseada na TCC, complementada por técnicas de tolerância ao mal-estar derivadas da TCD. Não presta terapia e não diagnostica nem trata nenhum problema de saúde.

A ferramenta Reformular acompanha-te numa reestruturação cognitiva estruturada, assente no modelo de TCC de Beck, com perguntas para identificares distorções cognitivas e construíres uma resposta mais equilibrada: o mesmo processo de exame dos pensamentos descrito acima. Podes ler mais sobre como funciona em Reformular: reformulação de pensamentos com TCC.

A ferramenta Ancorar guia-te pelo exercício de ancoragem sensorial 5-4-3-2-1, derivado da TCD, para os momentos em que o trabalho cognitivo não é o que faz falta. A ferramenta Respirar oferece padrões de respiração diafragmática e ritmada, incluindo o ritmo de respiração coerente de 5,5 segundos. A funcionalidade Humor é um registo de humor diário, fundamentado na investigação sobre a nomeação de emoções (affect labelling): a constatação de que dar nome a uma emoção pode reduzir-lhe a intensidade. As Tendências mostram-te a evolução do teu próprio humor e, se optares por ligar dados de saúde, uma vista opcional de correlação com dados biométricos.

São ferramentas. O que observas nos teus próprios dados, e o que decides fazer com isso, é contigo.

Perguntas frequentes

TCC ou TCD: qual é melhor para a ansiedade?

Nas perturbações de ansiedade em particular, é a TCC que tem a evidência mais ampla e mais consolidada. A TCD foi desenvolvida para a perturbação de personalidade borderline e para a ideação e os comportamentos suicidas crónicos, pelo que a evidência que a apoia na ansiedade é mais escassa. Ainda assim, as competências de tolerância ao mal-estar da TCD, como a respiração ritmada e a ancoragem, são muito usadas para gerir momentos agudos de ansiedade. Um profissional de saúde mental pode aconselhar-te sobre a abordagem que melhor se adequa à tua situação.

É possível usar a TCC e a TCD ao mesmo tempo?

Sim. As duas abordagens não se excluem. Muitos programas transdiagnósticos e integrativos recorrem a ambas. Na prática, podes usar a reestruturação cognitiva, ao estilo da TCC, quando tens espaço mental para examinar um pensamento, e as técnicas de tolerância ao mal-estar da TCD quando a sobrecarga é demasiada para raciocinar com clareza. A escolha depende do que o momento pede.

Preciso de um diagnóstico para tirar partido das competências da TCD?

Não. A TCD foi desenvolvida para uma população clínica específica, mas as competências, em especial a tolerância ao mal-estar e o mindfulness, descrevem experiências comuns a quase toda a gente. A dificuldade em aguentar emoções intensas não é exclusiva de nenhum diagnóstico. Muitas pessoas consideram úteis algumas competências da TCD fora de qualquer contexto clínico, embora o programa completo de TCD seja um tratamento clínico que exige um terapeuta qualificado.

O que é a técnica de ancoragem 5-4-3-2-1?

É um exercício de ancoragem sensorial que vem da tolerância ao mal-estar da TCD. Nomeias cinco coisas que vês, quatro que ouves, três que sentes fisicamente, duas que cheiras e uma que saboreias. O objetivo é desviar a atenção de uma espiral de pensamentos ansiosos para o ambiente à tua volta. Não exige mudar nenhuma crença: funciona porque desloca o foco.

As apps de saúde mental substituem a terapia?

Não. As apps podem tornar mais acessíveis as técnicas derivadas da TCC e da TCD e apoiar uma prática regular. Não conseguem oferecer avaliação clínica, diagnóstico nem a relação terapêutica que a terapia formal proporciona. A investigação sobre ferramentas de saúde mental em apps é promissora, mas ainda está em desenvolvimento. Se estás a passar por dificuldades significativas, o melhor primeiro passo é falares com o teu médico de família ou com um profissional de saúde mental.

Fontes

  1. Beck, A.T. (1979), “Cognitive Therapy of Depression”, Guilford Press, texto fundador do modelo cognitivo; vê também a apresentação do Beck Institute em beckinstitute.org
  2. American Psychological Association (2017), “What is Cognitive Behavioral Therapy?”, APA Clinical Practice Guideline, apa.org
  3. NICE (2011, atualizada em 2022), “Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management”, Clinical guideline CG113, nice.org.uk
  4. Linehan, M.M. (1993), “Cognitive-Behavioral Treatment of Borderline Personality Disorder”, Guilford Press, texto fundador da TCD; vê também a apresentação das Behavioral Research and Therapy Clinics da University of Washington
  5. National Institute of Mental Health (NIMH), “Borderline Personality Disorder”, nimh.nih.gov, resumo da evidência sobre a TCD na perturbação de personalidade borderline
  6. Lehrer, P.M. & Gevirtz, R. (2014), “Heart rate variability biofeedback: how and why does it work?”, Frontiers in Psychology, frontiersin.org
  7. Linardon, J. et al. (2020), “The efficacy of app-supported smartphone interventions for mental health problems: a meta-analysis of randomized controlled trials”, World Psychiatry, wpanet.org