Estimulação bilateral e sono: o que diz a evidência
Faz uma pesquisa por áudio bilateral e sono e vais encontrar muitas certezas. Faixas que prometem reiniciar o sistema nervoso. Apps que garantem levar-te ao estado que o cérebro atinge no sono REM. Clínicas a explicar que o som alternado entre a esquerda e a direita equilibra os hemisférios.
Fomos à procura dos estudos por trás destas afirmações. Eis o que encontrámos, que é quase nada, e porque achamos que vale a pena dizê-lo com todas as letras em vez de passar ao lado do assunto.
O que é, afinal, a estimulação bilateral
Vem do EMDR, uma terapia que Francine Shapiro descreveu em 1989 para o stress pós-traumático [1]. Nela, a pessoa mantém presente uma memória perturbadora enquanto segue um estímulo rítmico da esquerda para a direita: de início, o dedo do terapeuta em movimento; mais tarde, também sons ou toques alternados. Esse estímulo alternado é a estimulação bilateral. É um dos componentes de um protocolo de oito fases, aplicado por um clínico com formação específica, a par da recolha da história clínica, do trabalho de segurança, do processamento estruturado e do encerramento.
Repara no que ela não é. Não é uma faixa que pões a tocar. Na investigação, a estimulação acompanha sempre a evocação deliberada de algo difícil, com um terapeuta a gerir o que acontece a seguir.
A evidência sobre o sono
Não existe. Procurámos na literatura indexada estudos controlados sobre áudio bilateral ou alternado para o adormecer, a qualidade do sono, a manutenção do sono ou a insónia, e não encontrámos nenhum. Tudo o que parecia corresponder era, afinal, uma coisa completamente diferente com um nome parecido: estimulação do nervo hipoglosso para a apneia do sono, estimulação cerebral profunda bilateral, estimulação magnética bilateral.
Não é que a evidência seja fraca ou contraditória: simplesmente não há ensaios.
A ponte que se costuma fazer entre o EMDR e o sono passa pela ideia de que a estimulação bilateral imita o que o cérebro faz durante o sono REM. A revisão mais exaustiva dos mecanismos propostos para o EMDR classifica essa analogia com o REM como especulativa, com validação empírica limitada [2]. É uma hipótese sobre a razão por que uma terapia para o trauma poderá funcionar. Não é uma conclusão sobre o sono, e não aguenta o peso que os textos de marketing lhe põem em cima.
A parte que nos surpreendeu
A alternância entre a esquerda e a direita pode nem sequer ser o ingrediente ativo do próprio EMDR.
O maior ensaio de desmantelamento distribuiu aleatoriamente 139 pessoas com perturbação de stress pós-traumático (PSPT) por três condições: olhos a seguir uma mão em movimento, olhos fixos numa mão parada ou exposição sem foco visual. As duas condições com foco de atenção superaram claramente a exposição isolada. Não houve diferença significativa entre a mão em movimento e a mão parada [3]. O que ajuda, ao que parece, é ter onde pôr a atenção, e não o facto de esta se mover de um lado para o outro.
A hipótese que é especificamente sobre a bilateralidade, a de que a alternância melhora a comunicação entre os hemisférios, é a que está em pior estado de todas. O principal efeito de laboratório em que assenta não foi replicado, e a estatística pendeu claramente a favor da ausência de qualquer efeito [6]. E, onde o áudio foi testado diretamente contra os movimentos oculares, o áudio ficou pior, não igual [5].
O que dizem as orientações clínicas
O NICE recomenda o EMDR para adultos com PSPT, aplicado por um clínico com formação específica e segundo um protocolo estruturado [7]. A OMS inclui-o como opção a considerar para a PSPT e, explicitamente, não o recomenda para o stress agudo [8]. Uma revisão de 76 ensaios concluiu que não há evidência suficiente para aconselhar o EMDR em problemas de saúde mental que não sejam a PSPT [4].
O pormenor que nos pareceu mais revelador: as orientações da OMS abordam, de facto, os problemas de sono depois de um trauma. O que aí se recomenda são técnicas de relaxamento e higiene do sono, e não estimulação bilateral [8].
E, quanto a fazer qualquer destas coisas por conta própria, uma pesquisa sistemática de investigação sobre EMDR autoadministrado encontrou um único estudo, de pequena dimensão, e assinalou ao mesmo tempo que as apps de EMDR de autoajuda já estão amplamente disponíveis ao público [9]. Os produtos vão muito à frente da evidência.
Então porque é que parece que ajuda?
Porque estão a acontecer várias coisas banais ao mesmo tempo, e nenhuma delas precisa de uma teoria dos hemisférios.
Puseste os auscultadores e paraste de fazer scroll. Estás na cama, sem te mexeres. Há um ritmo lento e previsível onde pousar a atenção, e é mais difícil pensar por cima dele do que por cima do silêncio. Marcaste uma fronteira entre o dia e o sono. Em estudos, os estímulos sensoriais rítmicos produzem, de facto, alterações mensuráveis de curto prazo na ativação autonómica [10]. Convém notar, no entanto, que um estudo encontrou as mesmas alterações quer a pessoa recordasse algo stressante, quer algo neutro, o que aponta para um efeito geral do som e não para algo específico do processamento.
Nada disto é pouco. Um ritual de fim de dia que te leva sempre para a cama e te afasta do telemóvel é mesmo útil. Só que é uma afirmação diferente daquela que te andam a fazer.
O que dizemos sobre o nosso próprio áudio
O Abrandar é áudio que passa suavemente de um ouvido para o outro. Há quem o ache calmante e o use à noite. Não te vamos dizer que te ajuda a dormir, porque ninguém demonstrou que ajuda, e preferimos ser a fonte em que podes confiar neste assunto a ser a décima a repetir uma afirmação que ninguém testou.
O MoodFire não é terapia e o Abrandar não é EMDR. Se estás a lidar com um trauma, o caminho com base na evidência é um terapeuta com formação em EMDR ou em TCC focada no trauma, e vale a pena esperar pela consulta. Trabalhar material traumático por conta própria, sem ninguém que te ajude a encerrar o processo depois, não é algo que uma faixa de áudio deva convidar-te a fazer.
Se o problema é mesmo o sono, as respostas aborrecidas continuam a ser as que têm melhor evidência: hora certa para acordar, luz de manhã, menos luz à noite e sair da cama quando o sono já não vem há algum tempo. Não têm nada de glamoroso, mas estão bastante mais bem fundamentadas.
Fontes
- Shapiro, F. (1989), “Eye movement desensitization: a new treatment for post-traumatic stress disorder”, Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, doi.org
- Landin-Romero et al. (2018), “How Does Eye Movement Desensitization and Reprocessing Therapy Work? A Systematic Review on Suggested Mechanisms of Action”, Frontiers in Psychology, doi.org
- Sack et al. (2016), “A Comparison of Dual Attention, Eye Movements, and Exposure Only during EMDR for PTSD: Results from a Randomized Clinical Trial”, Psychotherapy and Psychosomatics, doi.org
- Cuijpers et al. (2020), “Eye movement desensitization and reprocessing for mental health problems: a systematic review and meta-analysis”, Cognitive Behaviour Therapy, doi.org
- van den Hout et al. (2011), “EMDR: Eye movements superior to beeps in taxing working memory and reducing vividness of recollections”, Behaviour Research and Therapy, doi.org
- Roberts, Fernandes & MacLeod (2020), “Re-evaluating whether bilateral eye movements influence memory retrieval”, PLOS ONE, doi.org
- NICE (2018), “Post-traumatic stress disorder”, NICE guideline NG116, nice.org.uk
- World Health Organization (2013), “Guidelines for the Management of Conditions Specifically Related to Stress”, who.int
- Waterman & Cooper (2020), “Self-administered EMDR therapy: potential solution for expanding the availability of psychotherapy for PTSD or unregulated recipe for disaster?”, BJPsych Open, doi.org
- Sack et al. (2008), “Alterations in autonomic tone during trauma exposure using eye movement desensitization and reprocessing”, Journal of Anxiety Disorders, doi.org