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Ansiedade à noite: porque é que piora e como acalmar a mente

O dia até correu bem. Cheio, talvez com stress, mas deste conta do recado. Depois as luzes apagam-se, o quarto fica em silêncio e o cérebro decide que é a altura perfeita para rever todas as coisas embaraçosas que alguma vez disseste e imaginar o pior sobre o dia de amanhã.

A ansiedade noturna não é um defeito de carácter nem dramatismo teu, e está longe de acontecer só contigo. Segundo um estudo de 2020 publicado no Journal of Psychiatric Research, os sintomas de ansiedade intensificam-se ao anoitecer e durante a noite numa proporção significativa das pessoas com ansiedade generalizada, e a hora de deitar é um pico de preocupação e ruminação [1].

Há razões concretas, biológicas, para o cérebro fazer isto depois de escurecer. O ritmo do cortisol altera-se. As distrações que mantinham os pensamentos intrusivos à distância durante o dia desaparecem. O córtex pré-frontal, a parte do cérebro que põe as preocupações em perspetiva, está a preparar-se para o sono, enquanto a amígdala, o centro de deteção de ameaças, continua bem desperta e de serviço [2].

O lado bom é que, quando percebes como isto funciona, podes jogar a favor do mecanismo, em vez de ficares na cama a lutar contra o próprio sistema nervoso. Não é questão de puxar mais pela cabeça nem de te obrigares a relaxar, mas de dar ao cérebro e ao corpo os sinais concretos de que precisam para baixar a guarda.

Porque é que a ansiedade piora à noite

Durante o dia, o cérebro anda ocupado: trabalho, conversas, notificações, recados, ruído de fundo. Tudo isso funciona como um amortecedor entre ti e os pensamentos ansiosos. A ansiedade não é menor durante o dia; há é demasiada coisa a acontecer para dares por grande parte dela.

À noite, esse amortecedor desaparece. O quarto está escuro, a casa em silêncio, nada disputa a tua atenção, e o cérebro volta ao passatempo preferido: procurar ameaças. Os investigadores chamam a isto o modelo cognitivo da insónia: quando a estimulação externa diminui, o processamento interno intensifica-se. Preocupações que às 2 da tarde eram ruído de fundo passam a som surround às 2 da manhã [3].

Há também uma dimensão física. Quando te deitas, o corpo muda de ritmo: a frequência cardíaca baixa, os músculos relaxam. Mas, se o sistema nervoso já está em alerta máximo, estes sinais criam um desencontro, com o corpo a tentar entrar em repouso enquanto o cérebro acelera. Esse conflito é muito desconfortável: uma inquietação, um aperto no peito ou aquela sensação, que se vai instalando, de que algo está mal, embora nada tenha mudado desde que lavaste os dentes.

E depois há a meta-ansiedade: a ansiedade por não conseguires dormir. Começas a olhar para o relógio, a calcular quantas horas te restam, a repetir mentalmente que amanhã não vais render nada. Essa segunda camada de preocupação ativa ainda mais o sistema nervoso simpático e inunda o corpo de adrenalina precisamente no momento em que ele precisa do contrário [4].

O papel do cortisol e do relógio biológico

O corpo funciona segundo um relógio interno de cerca de 24 horas, o chamado ritmo circadiano. Uma das principais funções desse relógio é regular o cortisol, a principal hormona do stress. Num padrão saudável, o cortisol atinge o pico de manhã cedo (a resposta do cortisol ao acordar), o que te dá energia para te levantares e funcionares. Depois desce gradualmente ao longo do dia e chega ao ponto mais baixo por volta da meia-noite [5].

À partida, isto devia ajudar: menos cortisol à noite, menos stress. Mas, em quem tem ansiedade, o sistema nem sempre segue o guião. Num estudo publicado na Psychoneuroendocrinology, as pessoas com perturbação de ansiedade generalizada apresentavam uma curva de cortisol mais plana, ou seja, o cortisol não descia ao fim do dia de forma tão acentuada como devia [6]. Levavam mais hormona do stress residual para a noite, o que mantinha o sistema nervoso num estado de ativação de baixa intensidade.

Há outro fator. A melatonina, a hormona que dá o sinal para dormir, começa a subir ao fim do dia, à medida que o cortisol desce. Só que o cortisol e a melatonina são antagonistas: quando um está elevado, inibe o outro [5]. Se o cortisol não desceu o suficiente, a melatonina não consegue cumprir bem a sua função. Estás de rastos, mas continuas a mil: exaustão e alerta ao mesmo tempo. O corpo quer dormir, mas o cérebro ainda não recebeu o recado químico de que é seguro fazê-lo.

O stress crónico agrava isto com o tempo. A ansiedade prolongada pode desregular o eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal (HPA), o circuito de retroação que controla a produção de cortisol. O sistema perde sensibilidade ao próprio botão de desligar, pelo que o cortisol se mantém elevado durante mais tempo e demora mais a recuperar depois de um acontecimento stressante [7]. Para quem vive com ansiedade persistente, a biologia joga contra as noites tranquilas.

Pensamentos acelerados e a ausência de distrações

A espiral mental que arranca à hora de deitar tem nome: ativação cognitiva pré-sono. É diferente da ativação física (coração acelerado, tensão muscular) e refere-se especificamente à incapacidade da mente de se desligar das preocupações do dia. Um estudo publicado na Behaviour Research and Therapy mostrou que a ativação cognitiva pré-sono era um preditor mais forte da dificuldade em adormecer do que a ativação física ou a depressão [8].

O conteúdo destes pensamentos acelerados segue padrões previsíveis. Reviver acontecimentos passados e imaginar os piores cenários futuros são as duas categorias mais comuns. Os psicólogos descrevem isto como a diferença entre ruminação (virada para o passado) e preocupação (virada para o futuro), e ambas se amplificam quando não há mais nada a ocupar a memória de trabalho [9].

Durante o dia, o cérebro faz malabarismo com dezenas de tarefas. Essa carga cognitiva, por muito cansativa que seja, tem uma função protetora: deixa menos espaço para a narrativa ansiosa andar à solta. À noite, o espaço abre-se. À 1 da manhã, o cérebro não tem mais que fazer do que de dia: tem menos, e os pensamentos ansiosos apressam-se a preencher o vazio.

É também por isso que o “tenta só não pensar nisso” falha redondamente. A investigação sobre a supressão de pensamentos, desde as clássicas experiências do urso branco de Wegner, mostra, estudo após estudo, que fazer um esforço para não pensar em algo aumenta a frequência desse pensamento [10]. Quanto mais te esforças por afastar a preocupação, mais barulho ela faz ao voltar.

Como o tempo de ecrã e o doomscrolling alimentam o ciclo

Quando não consegues dormir, o telemóvel está mesmo ali. Parece uma tábua de salvação, algo que te distrai da espiral. Mas a investigação diz outra coisa.

A luz azul emitida pelos ecrãs inibe a produção de melatonina. Num estudo publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, a exposição, ao fim do dia, a ecrãs que emitem luz atrasou o relógio circadiano em cerca de 1,5 horas e reduziu a melatonina em mais de 50% em comparação com a leitura de um livro impresso [11]. No fundo, estás a enviar ao cérebro um sinal químico de que ainda é dia.

E não é só a luz: o conteúdo também conta. Os algoritmos das redes sociais são otimizados para gerar interação, o que na prática significa que destacam conteúdos que provocam reações emocionais fortes: indignação, medo, comparação e inveja. Um estudo de 2019 publicado na The Lancet encontrou uma relação dose-resposta entre o uso das redes sociais e a má qualidade do sono nos jovens, associação essa parcialmente mediada pela ansiedade e pela perturbação emocional [12].

O doomscrolling, o consumo compulsivo de notícias negativas, é particularmente corrosivo à noite. Estás a alimentar um sistema de deteção de ameaças já ativado com um fluxo de informação que é mesmo ameaçadora. A amígdala não distingue entre uma guerra noutro continente e uma guerra no teu bairro. Reage ao sinal, e não ao contexto [2].

Técnicas que te ajudam a acalmar à noite

O objetivo não é deixar de pensar, mas dar ao sistema nervoso sinais de “segurança” suficientes para ele baixar a guarda. Estas técnicas têm investigação a sustentá-las e jogam a favor da biologia, em vez de a contrariarem.

Respiração estruturada com expiração prolongada

A respiração lenta, com a expiração mais longa do que a inspiração, ativa diretamente o sistema nervoso parassimpático através do nervo vago. Num estudo de Stanford, apenas cinco minutos de suspiro cíclico (duas inspirações curtas pelo nariz seguidas de uma expiração longa pela boca) superaram a meditação mindfulness na redução da ativação fisiológica [13]. Na cama, experimenta inspirar a contar até quatro e expirar a contar até seis ou oito. A expiração prolongada é o princípio ativo.

A janela de preocupação

Reserva 15 minutos ao início da noite, bem antes de te deitares, para escrever tudo o que te preocupa. A investigação sobre o controlo de estímulos na insónia mostra que definir uma hora e um lugar específicos para a preocupação reduz a intrusão de pensamentos ansiosos à hora de deitar [14]. Não estás a suprimir os pensamentos; estás a agendá-los. Quando aparecerem na cama, podes responder mentalmente: “Já tratei disso. Está na lista.”

A técnica de ancoragem 5-4-3-2-1

Nomeia cinco coisas que vês, quatro que ouves, três em que tocas, duas que cheiras e uma que saboreias. Este exercício de ancoragem sensorial tira-te a atenção do ciclo abstrato de preocupação e fixa-a no momento presente. Está demonstrado que as técnicas de ancoragem reduzem os sintomas dissociativos e a ansiedade aguda ao redirecionarem os recursos cognitivos para estímulos sensoriais externos [15]. Num quarto escuro, podes adaptá-lo: concentra-te antes em texturas, sons e sensações físicas.

Relaxamento com varrimento corporal (body scan)

Começa pelos dedos dos pés e sobe aos poucos: contrai deliberadamente cada grupo muscular durante cinco segundos e depois solta. O relaxamento muscular progressivo é estudado desde a década de 1930, e uma meta-análise publicada na BMC Psychiatry confirmou efeitos significativos tanto na ansiedade como na qualidade do sono [16]. A libertação física da tensão envia um sinal direto de “segurança” ao sistema nervoso, e o foco sistemático dá à mente algo estruturado para seguir, em vez de saltar de associação em associação até cair na preocupação.

Como criar uma rotina noturna que baixe a ansiedade de base

As técnicas isoladas ajudam no momento, mas a verdadeira mudança vem de uma rotina regular de fim de dia. O cérebro é uma máquina de reconhecer padrões. Se lhe deres a mesma sequência de sinais todas as noites, ele aprende a associar esses sinais ao sono.

Os investigadores do sono chamam a isto higiene do sono e, embora o termo soe clínico, os princípios são simples. Deita-te e acorda mais ou menos à mesma hora todos os dias, incluindo ao fim de semana. Baixa as luzes uma hora antes de te deitares. Deixa de usar ecrãs pelo menos 30 minutos antes da hora a que contas dormir. Mantém o quarto fresco: cerca de 18°C é o ideal para a maioria das pessoas [17].

A rotina em si não precisa de ser elaborada. Bastam cinco minutos de exercícios de respiração, um breve varrimento corporal e a lista de tarefas de amanhã posta no papel, para tirar da cabeça o que ficou por fazer. Segundo um estudo publicado no Journal of Experimental Psychology, dedicar cinco minutos a escrever uma lista de tarefas específica antes de deitar ajudou os participantes a adormecer significativamente mais depressa do que escrever sobre tarefas que já tinham concluído [18]. Pôr a preocupação cá fora reduz a carga cognitiva que o cérebro leva para a noite.

Mais do que a perfeição, importa a regularidade. Falhar uma noite não desfaz o progresso. Mas semanas seguidas com o mesmo sinal de fim de dia treinam o sistema nervoso para esperar o sono, e a expectativa é meio caminho andado.

O que dizem os números sobre a geração Z

A ansiedade noturna atinge os adultos mais jovens de forma desproporcionada. No Reino Unido, a Sleep Charity indica que 40% dos jovens dos 18 aos 24 anos dizem que a ansiedade é a principal razão para a dificuldade em dormir [19]. O Adult Psychiatric Morbidity Survey, do NHS, mostra que as perturbações mentais comuns entre os jovens dos 16 aos 24 anos estão agora nos 25,8%, face a 18,9% uma década antes [20].

Nos Estados Unidos, no inquérito Stress in America, da American Psychological Association, a geração Z referiu os níveis de stress mais elevados de todas as gerações, sendo as perturbações do sono uma das consequências mais apontadas [21]. Na Austrália, a Sleep Health Foundation estima que um em cada três jovens adultos tem sintomas de insónia clinicamente significativos, com a ansiedade como principal fator [22].

Não são números pequenos, e surgem num contexto em que é difícil conseguir apoio profissional. As esperas pelas terapias psicológicas do NHS chegam a meses na maior parte de Inglaterra, e em algumas zonas ultrapassam um ano [20]. Se estás nessa fila, uma ferramenta de autoajuda que podes usar esta noite não substitui os cuidados adequados. É algo a que te podes agarrar até eles chegarem.

As ferramentas para a noite, todas à mão

O MoodFire foi pensado para noites assim. O Respirar oferece exercícios de respiração guiada de 60 segundos, com ritmo visual e feedback háptico, concebidos com base na investigação sobre a ativação parassimpática. A ferramenta Ancorar guia-te pela ancoragem sensorial 5-4-3-2-1 quando os pensamentos se tornam abstratos e resvalam para o pânico. O áudio bilateral dá-te algo lento e constante para ouvir quando ainda sentes tudo acelerado depois de a intensidade inicial baixar.

Registar o teu humor antes de dormir ajuda-te a detetar padrões ao longo do tempo. Talvez as piores noites surjam depois de certos gatilhos, talvez a ansiedade dispare ao domingo. Quem está lá dentro não dá pelo padrão, mas bastam algumas semanas de dados para ele ficar à vista.

Nenhuma ferramenta isolada é uma solução mágica. A ansiedade à noite não ataca só por um lado, e a resposta também não pode vir só de um. Mas vale a pena ter um conjunto de ferramentas a que possas recorrer no escuro, sem precisar de marcar consulta nem de esperar por uma referenciação.

O teu cérebro não está avariado: está a fazer o que qualquer cérebro faz quando o mundo fica em silêncio e as proteções desaparecem. O truque não é lutar contra ele, mas dar-lhe algo melhor para fazer.

Fontes

  1. Dietch et al. (2020), “Temporal Associations Between Anxiety and Insomnia Symptoms”, Journal of Psychiatric Research, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  2. Arnsten (2009), “Stress Signalling Pathways That Impair Prefrontal Cortex Structure and Function”, Nature Reviews Neuroscience, pmc.ncbi.nlm.nih.gov
  3. Harvey (2002), “A Cognitive Model of Insomnia”, Behaviour Research and Therapy, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  4. Kalmbach et al. (2018), “Hyperarousal and Sleep Reactivity in Insomnia: Current Insights”, Nature and Science of Sleep, pmc.ncbi.nlm.nih.gov
  5. Hirotsu et al. (2015), “Interactions Between Sleep, Stress, and Metabolism”, Sleep Science, pmc.ncbi.nlm.nih.gov
  6. Fisher & Newman (2016), “Cortisol as a Predictor of Generalised Anxiety Disorder”, Psychoneuroendocrinology, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  7. Herman et al. (2016), “Regulation of the Hypothalamic-Pituitary-Adrenocortical Stress Response”, Comprehensive Physiology, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  8. Nicassio et al. (1985), “The Phenomenology of the Pre-Sleep State: The Development of the Pre-Sleep Arousal Scale”, Behaviour Research and Therapy, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  9. Nolen-Hoeksema et al. (2008), “Rethinking Rumination”, Perspectives on Psychological Science, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  10. Wegner et al. (1987), “Paradoxical Effects of Thought Suppression”, Journal of Personality and Social Psychology, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  11. Chang et al. (2015), “Evening Use of Light-Emitting eReaders Negatively Affects Sleep”, Proceedings of the National Academy of Sciences, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  12. Scott et al. (2019), “Social Media Use and Adolescent Sleep Patterns”, The Lancet Child & Adolescent Health, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  13. Balban et al. (2023), “Brief Structured Respiration Practices Enhance Mood and Reduce Physiological Arousal”, Cell Reports Medicine, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  14. Harvey (2002), “A Cognitive Model of Insomnia”, Behaviour Research and Therapy, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  15. Ozamiz-Etxebarria et al. (2020), “Grounding Techniques for Anxiety: A Systematic Review”, International Journal of Environmental Research and Public Health, pmc.ncbi.nlm.nih.gov
  16. Liu et al. (2020), “Progressive Muscle Relaxation for Anxiety and Sleep: A Meta-Analysis”, BMC Psychiatry, pmc.ncbi.nlm.nih.gov
  17. Irish et al. (2015), “The Role of Sleep Hygiene in Promoting Public Health”, Sleep Medicine Reviews, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  18. Scullin et al. (2018), “The Effects of Bedtime Writing on Difficulty Falling Asleep”, Journal of Experimental Psychology, pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  19. The Sleep Charity, “Young People and Sleep”, thesleepcharity.org.uk
  20. NHS England, “Adult Psychiatric Morbidity Survey 2023/24”; House of Commons Library, “Mental Health Statistics: England”, commonslibrary.parliament.uk
  21. American Psychological Association, “Stress in America”, apa.org
  22. Sleep Health Foundation, “Insomnia”, sleephealthfoundation.org.au

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