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Apps de bem-estar mental e dados biométricos: o que o sono e a frequência cardíaca podem (e não podem) dizer sobre o seu humor

Relógios, pulseiras inteligentes e celulares coletam hoje, em silêncio, um fluxo de dados sobre você: quanto tempo dormiu, se o sono foi agitado, a frequência cardíaca de repouso, a variabilidade da frequência cardíaca (HRV, na sigla em inglês) e mais ou menos quantos passos deu. Alguns apps de bem-estar mental conseguem se conectar a esse fluxo e colocá-lo ao lado das suas avaliações de humor. A promessa faz sentido: o corpo provavelmente sabe alguma coisa sobre como você se sente. A realidade é bem mais complicada.

O que a pesquisa diz, e o que não diz

Sono

Sono e humor estão de fato ligados. Há muita pesquisa mostrando que dormir menos, ou ter um sono mais interrompido, está associado a mais afeto negativo no dia seguinte, a um humor menos positivo e a maior reatividade emocional. [1] Estudos longitudinais mostram que dormir mal de forma persistente é um fator de risco para o surgimento de depressão e de transtornos de ansiedade, e não apenas um sintoma deles. [2] Até aqui, nada que surpreenda.

Mas esse “associado a” esconde muita coisa. Quando se olha para a população, a relação é razoavelmente consistente. Quando se olha para uma única pessoa ao longo de uma semana, há muito ruído. Você pode dormir mal na terça e passar a quarta muito bem. Pode dormir um número de horas objetivamente normal e, ainda assim, acordar sem ânimo. O tamanho do efeito varia muito de pessoa para pessoa, e a direção pode até se inverter: há quem relate mais energia depois de dormir um pouco menos em fases de muita motivação.

O monitoramento do sono por aparelhos de uso pessoal acrescenta mais uma camada de incerteza. Dispositivos que estimam as fases do sono a partir do movimento do pulso ou de sensores ópticos de frequência cardíaca já foram comparados com a polissonografia, o padrão-ouro clínico. Eles se saem razoavelmente bem na duração total do sono, mas são bem menos confiáveis para classificar o sono em leve, profundo ou REM. [3] O que seu celular chama de “sono profundo” é uma estimativa, não uma medição.

Frequência cardíaca de repouso

A frequência cardíaca de repouso (RHR, na sigla em inglês) tende a subir em períodos de doença física, de excesso de treino e, em alguns estudos, em episódios de estresse psicológico elevado. [4] Alguns estudos observaram que, no conjunto do grupo, uma RHR elevada acompanha a ansiedade e os sintomas depressivos autorrelatados. Só que a RHR também muda com a hidratação, a cafeína, o álcool, a temperatura ambiente, a postura na hora da medição e o condicionamento físico. Uma única leitura elevada diz muito pouco. Uma tendência de alta que se mantém por dias, ao lado de outros sinais, merece mais atenção.

Variabilidade da frequência cardíaca

A HRV, que é a variação no tempo entre batimentos cardíacos sucessivos, é provavelmente o dado biométrico com a base teórica mais sólida em saúde mental. Uma HRV mais alta está associada a um tônus vagal maior e, em contextos de pesquisa, foi relacionada a uma melhor regulação emocional e a menos ansiedade-traço. [5] Já se observou HRV reduzida durante episódios depressivos e em pessoas com transtornos de ansiedade. [6]

As medições de HRV feitas por aparelhos de uso pessoal, porém, pedem ressalvas importantes. A métrica oscila bastante ao longo de um mesmo dia, conforme o padrão de respiração, a posição do corpo, o tempo que passou desde que você acordou e a atividade recente. Uma análise de HRV que faça sentido costuma exigir condições padronizadas: logo de manhã, em repouso, por pelo menos alguns minutos. A maioria dos dispositivos vestíveis mede quando surge a oportunidade, o que limita a comparação entre leituras de dias diferentes. [3]

Contagem de passos

Na literatura científica, a atividade física tem uma das associações mais sólidas com o humor. Uma metanálise de 2022 publicada na JAMA Psychiatry concluiu que níveis mais altos de atividade física estavam associados a um risco menor de depressão em diversos desenhos de estudo. [7] A contagem de passos é uma medida aproximada do nível de atividade, e provavelmente é o dado biométrico menos distorcido pelos aparelhos de uso pessoal. Mesmo assim, dez mil passos dados em um dia de pura apreensão dizem menos do que dez mil passos em um dia de trilha em um lugar onde você queria estar.

O problema do indivíduo: padrões populacionais não preveem a sua semana

A maior parte das pesquisas citadas acima vem de estudos com centenas ou milhares de participantes. Associações estatísticas nessa escala não se convertem diretamente em previsões sobre uma única pessoa em um dia específico. Na psicologia, isso às vezes recebe o nome de problema da ergodicidade: o que vale na média de muitas pessoas não vale necessariamente para uma mesma pessoa ao longo do tempo. [8]

Seus próprios dados longitudinais, ou seja, seu sono ao lado das suas avaliações de humor, registrados com constância ao longo de semanas, dizem, no fim das contas, mais sobre você do que qualquer estudo populacional. Esse é um argumento legítimo a favor do registro pessoal. Mas, mesmo nesse caso, um padrão nos seus próprios dados continua sendo uma correlação: não diz o que causa o quê.

HealthKit e Health Connect: o que são e como funciona o acesso

Nos aparelhos da Apple, os dados de saúde e condicionamento físico ficam reunidos no HealthKit, uma estrutura que armazena dados do app Saúde, do Apple Watch e de dispositivos de terceiros. No Android, o equivalente é o Health Connect, lançado pelo Google como uma plataforma unificada de dados de saúde. [9] Os dois foram projetados para que os apps possam pedir acesso de leitura ou de gravação a tipos específicos de dados (análise do sono, frequência cardíaca, contagem de passos e assim por diante), e é o usuário quem precisa conceder esse acesso de forma explícita. A permissão pode ser revogada a qualquer momento nas configurações do aparelho.

Essa arquitetura de adesão voluntária faz diferença. Os dados de saúde não são coletados de forma passiva nem por padrão. Se você nunca der a um app de bem-estar acesso ao HealthKit ou ao Health Connect, ele não recebe nada dessas fontes.

Por que os dados de saúde são, por lei, dados de categoria especial

No GDPR do Reino Unido e no GDPR da UE, os dados de saúde são classificados como dados pessoais de “categoria especial”, o que reflete o fato de que o uso indevido deles traz um risco maior de dano. O tratamento desses dados exige uma base legal prevista no artigo 9(2) do regulamento. A base mais relevante para um app de uso voluntário voltado ao consumidor é o artigo 9(2)(a): o titular dos dados deu consentimento explícito para o tratamento com finalidades específicas. [10]

Consentimento explícito é mais do que marcar uma caixinha. Ele precisa ser informado (você precisa saber quais dados estão sendo tratados e por quê), dado livremente, específico para a finalidade e inequívoco. Você também precisa poder retirá-lo. É por isso que apps de saúde legítimos mostram um pedido de consentimento claro antes de acessar dados biométricos, e é por isso que esses dados não deveriam ser reaproveitados para publicidade nem vendidos a terceiros sem um consentimento separado e igualmente explícito.

Se você está avaliando se vale a pena dar a um app de bem-estar mental acesso aos seus dados de saúde, as perguntas principais são: quais tipos específicos de dados ele vai ler, o que vai fazer com eles, quem mais pode recebê-los e como você revoga o acesso se mudar de ideia?

Correlação nos seus próprios dados: vale notar, não vale diagnosticar

Uma semana com média de cinco horas de sono e avaliações de humor sempre baixas é um padrão que vale notar. Ele pode levar a uma reflexão útil: você está dormindo menos por causa do estresse, ou o sono ruim está amplificando um estresse que já estaria ali de qualquer jeito? Será que outra coisa, como pressão no trabalho, um relacionamento difícil ou uma doença física, está afetando o sono e o humor ao mesmo tempo?

Notar um padrão é o começo de uma pergunta, não a resposta. Ver os dados biométricos e de humor lado a lado serve para tornar visíveis padrões que passariam despercebidos, não para explicá-los.

A abordagem do MoodFire: mostrar seus próprios dados sem prometer demais

O MoodFire é um app de autoajuda baseado em TCC (terapia cognitivo-comportamental), complementado por ferramentas de tolerância ao mal-estar derivadas da TCD (terapia comportamental dialética), criado para ajudar a lidar com o humor e a ansiedade no dia a dia. Não é um dispositivo médico e não diagnostica nem trata nenhum problema de saúde.

Dentro da seção Tendências, há uma visualização opcional chamada Corpo e humor. Se você decidir conectar o MoodFire ao Apple HealthKit (disponível apenas no iPhone), o que exige o seu consentimento explícito, dado por adesão (opt-in), tratado nos termos do artigo 9(2)(a) do GDPR, essa visualização coloca as avaliações dos seus registros de humor ao lado de dados biométricos como a duração do sono e a contagem de passos. Ela mostra como os seus números se comportam, lado a lado, ao longo do tempo.

A visualização não diz que seu sono está causando seu humor, nem que uma determinada leitura de HRV significa algo em particular. Ela apresenta um registro visual dos seus próprios dados para que você possa notar padrões e decidir se vale a pena levá-los para uma conversa com um médico, terapeuta ou outro profissional. Se você faz acompanhamento com um terapeuta, o recurso de exportação em PDF do MoodFire permite compartilhar diretamente com ele as tendências e os padrões recentes do seu humor.

O app complementar para Apple Watch e Wear OS permite fazer registros rápidos de humor direto do pulso, o que facilita registrar com constância os dados de humor, que são o lado subjetivo de qualquer correlação biométrica. Com avaliações de humor frequentes e regulares, os padrões que aparecem significam mais do que com registros esporádicos. A ferramenta Humor se apoia em pesquisas sobre rotulagem de afetos (affect labelling), ou seja, dar nome às emoções, que sugerem que nomear emoções com alguma especificidade já é, por si só, uma prática útil, independentemente de qualquer dado biométrico. [11]

Os dados biométricos podem ser um dos fios de uma trama mais rica sobre como você está. Vale tratá-los exatamente assim: um fio, lido com o devido ceticismo e à luz do que você vive.

Perguntas frequentes

Dormir mal piora o humor, ou é o humor baixo que atrapalha o sono?

As pesquisas indicam que a relação vai nos dois sentidos. Dormir mal pode aumentar a reatividade emocional e o afeto negativo no dia seguinte, enquanto o humor baixo e a ansiedade costumam atrapalhar o sono. Um padrão persistente das duas coisas juntas merece uma conversa com um profissional de saúde, mas os dados sozinhos não conseguem dizer o que veio primeiro nem o que está causando o quê.

A variabilidade da frequência cardíaca é um indicador confiável do meu estado mental?

Em contextos de pesquisa, a HRV tem ligações teóricas com a regulação emocional e a ansiedade, mas as medições de aparelhos de uso pessoal variam bastante conforme as condições, a posição do corpo e a hora do dia. Uma leitura isolada diz pouco. Uma tendência persistente, observada nas mesmas condições ao longo de semanas, pode dizer mais, mas ainda assim deve ser interpretada com cautela e não usada para autodiagnóstico.

O que o HealthKit ou o Health Connect compartilham de fato com um app?

Somente os tipos de dados específicos que você autoriza de forma explícita. As duas plataformas exigem a sua permissão antes de qualquer dado de saúde ser compartilhado com um app de terceiros. Você pode revogar esse acesso a qualquer momento nas configurações do aparelho. Um app não consegue acessar seus dados de saúde às escondidas nem sem o seu consentimento no momento da conexão.

Por que meus dados de saúde são tratados de forma diferente de outros dados pessoais no GDPR?

Os dados de saúde são classificados como dados pessoais de categoria especial no GDPR do Reino Unido e no da UE porque o uso indevido deles pode causar danos graves: discriminação, estigma, consequências no seguro ou no emprego. O tratamento desses dados exige consentimento explícito, nos termos do artigo 9(2)(a), o que significa que você precisa receber informações claras sobre o que é coletado, por quê e como retirar o consentimento. É uma exigência mais rigorosa do que a aplicada ao tratamento de dados pessoais comuns.

Um app de registro de humor consegue dizer se eu tenho depressão ou ansiedade?

Não. Apps de registro de humor, incluindo o MoodFire, não são ferramentas de diagnóstico e não podem diagnosticar nenhum problema de saúde. Eles podem ajudar você a notar padrões nos seus próprios registros de humor ao longo do tempo. Se a depressão ou a ansiedade preocupam você, o passo adequado é conversar com seu médico ou com um profissional de saúde mental qualificado.

Fontes

  1. Baglioni, C. et al. (2010), "Sleep and emotions: A focus on insomnia", Sleep Medicine Reviews, sleepfoundation.org / PubMed
  2. Alvaro, P.K., Roberts, R.M. & Harris, J.K. (2013), "A Systematic Review Assessing Bidirectionality between Sleep Disturbances, Anxiety, and Depression", Sleep, PubMed
  3. de Zambotti, M. et al. (2019), "Wearable Sleep Technology in Clinical and Research Settings", Medicine & Science in Sports & Exercise, PubMed
  4. Gordan, R., Gwathmey, J.K. & Xie, L.H. (2015), "Autonomic and endocrine control of cardiovascular function", World Journal of Cardiology, PMC
  5. Thayer, J.F. et al. (2012), "A meta-analysis of heart rate variability and neuroimaging studies: Implications for heart rate variability as a marker of stress and health", Neuroscience & Biobehavioral Reviews, PubMed
  6. Bassett, D. et al. (2016), "Heart rate variability in schizophrenia and depression", Psychiatry Research, PubMed
  7. Pearce, M. et al. (2022), "Association Between Physical Activity and Risk of Depression: A Systematic Review and Meta-analysis", JAMA Psychiatry, PubMed
  8. Fisher, A.J. et al. (2018), "Lack of group-to-individual generalizability is a threat to human subjects research", PNAS, PubMed
  9. Google (2023), "Health Connect overview", documentação do Android Developers
  10. UK Information Commissioner's Office (ICO), "Special category data", ico.org.uk
  11. Torre, J.B. & Lieberman, M.D. (2018), "Putting Feelings Into Words: Affect Labeling as Implicit Emotion Regulation", Emotion Review, PubMed