Registro de pensamentos: como fazer, passo a passo
Um registro de pensamentos é feito de seis campos e uma caneta. É também o exercício mais abandonado da TCC de autoajuda, em geral em menos de quatro dias.
Em parte, isso acontece porque ele costuma ser mal ensinado: como uma ficha que se preenche do jeito certo, e não como um experimento feito por você, sobre você. Veja como ele funciona na prática, incluindo as partes que dão errado.
As seis colunas
A versão original de Beck tinha cinco colunas de conteúdo [1]. Mais tarde, Greenberger e Padesky dividiram a etapa das provas em duas e introduziram a ideia de pensamento quente: aquele pensamento, no meio de todos os outros, que de fato carrega o sentimento [2]. É um refinamento que vale a pena, e por isso foi mantido aqui.
1. Situação
Onde você estava, com quem, o que estava acontecendo? Só fatos, em uma linha. “Domingo, 9 da noite, lendo e-mails do trabalho na cama.”
2. Emoções
Uma palavra para cada uma, e um número até 100. “Ansiedade 80. Vergonha 60.” O número importa mais do que parece: é a medida do antes, e sem ela não dá para saber se alguma coisa mudou.
3. Pensamentos (e, entre eles, o pensamento quente)
Escreva tudo o que passou pela sua cabeça. Depois releia e circule aquele que dá um frio na barriga. Esse é o pensamento quente, e é o único com que você vai trabalhar. A maioria dos registros que não funcionam é de gente discutindo, com todo o empenho, com um pensamento morno, enquanto o quente continua ali, intocado.
4. O que sustenta o pensamento
Aqui entram fatos, e não sensações: coisas que uma câmera teria registrado. “Ele respondeu com quatro palavras” conta. “Ele estava claramente irritado” não conta: isso já é uma interpretação.
5. O que não sustenta o pensamento
Vale o mesmo critério. Esta é a coluna difícil, justamente a que todo mundo pula. Perguntas que ajudam: o que eu diria a uma pessoa amiga que me dissesse isso? Já errei antes nesse tipo de previsão? O que estou deixando de fora porque não se encaixa?
6. A que conclusão você chega
Escreva uma frase em que você consiga acreditar de verdade, e não uma frase mais bonita. Depois, dê nota de novo às emoções. Se a ansiedade foi de 80 para 65, o exercício está funcionando. A ideia não é chegar a zero.
Um exemplo completo
Situação: domingo, 9 da noite, lendo uma resposta curta da minha chefe. Emoções: ansiedade 80, vergonha 60. Pensamento quente: “Ela acha que eu não dou conta.” O que sustenta: a resposta tinha quatro palavras e nenhuma saudação. O que não sustenta: ela escreve assim para todo mundo; ela me pediu para conduzir a reunião com o cliente na quinta-feira; não recebi nenhuma crítica em onze meses; eram 9 da noite de um domingo e ela provavelmente estava no celular. A que conclusão eu chego: “Um e-mail curto num domingo à noite é um indício fraco do que ela pensa do meu trabalho.” Nova nota: ansiedade 45, vergonha 30.
Nada se resolveu. Mas 80 virou 45 só com fatos que você já tinha.
O que as evidências dizem sobre este exercício
Os registros de pensamentos são um recurso padrão, amplamente ensinado, e fazem parte de pacotes de tratamento que claramente funcionam. Se é o registro de pensamentos o ingrediente que produz o efeito, já é outra história, e a resposta incomoda.
Uma análise de componentes de 2021, com 76 ensaios clínicos randomizados de TCC pela internet e 17.521 pessoas, concluiu que a reestruturação cognitiva não trazia nenhum benefício independente detectável, enquanto a ativação comportamental claramente trazia [3]. Em um estudo de comparação direta, os experimentos comportamentais (ir lá e descobrir) mudaram mais as crenças do que os registros de pensamentos [4]. Nos transtornos de ansiedade em geral, a terapia cognitiva não supera a exposição, exceto possivelmente na ansiedade social [5]. O que de fato anda junto com os resultados é simplesmente fazer as tarefas de casa, com constância [6].
Leia isso como uma orientação, e não como um motivo para parar: um registro de pensamentos que termina em um pequeno experimento vale mais do que um que termina em um parágrafo mais arrumado.
Quando não funciona
Você escolheu o pensamento errado. Nada muda porque o pensamento quente continua sem ser examinado.
Você escreveu uma pergunta. “E se me demitirem?” não pode ser testada. Antes, transforme a pergunta em uma afirmação: “Vão me demitir.”
Você tende a se preocupar muito, e as preocupações se multiplicam. Se cada preocupação examinada gera outras duas, os registros de pensamentos podem alimentar a máquina em vez de deixá-la sem combustível. Esse padrão pede outra abordagem e, provavelmente, uma pessoa.
É uma crença, e não um pensamento. “No fundo, é impossível gostar de mim” não vai ceder com quatro linhas de provas, e não conseguir mudá-la pode confirmar justamente aquilo de que você tem medo.
Você sabe, mas não sente. É comuníssimo, e não é fracasso nenhum. A mudança de crença costuma chegar bem depois da lógica.
Você faz o exercício com uma voz cruel. Um pensamento equilibrado e tecnicamente correto, dito com desprezo, não surte efeito.
Por conta própria
Uma ressalva honesta sobre a autoajuda. Em uma metanálise em rede de 36 ensaios com 8.107 pessoas, a TCC pela internet com acompanhamento superou a versão sem acompanhamento, e a diferença dependia da gravidade. Com sintomas leves, as duas foram mais ou menos equivalentes; acima do nível moderado, a versão com acompanhamento foi claramente melhor [7]. Usados sozinhos, os apps têm efeitos reais, mas modestos, sobre a depressão e a ansiedade [9], e, na vida real, a maioria das pessoas deixa de usá-los em menos de um mês [10].
O dado tranquilizador: em uma análise de 13 ensaios, as pessoas que usavam TCC autoguiada pela internet tinham menos probabilidade de piorar do que os grupos de controle, e não mais [8]. Fazer isso por conta própria não parece piorar as coisas. Só funciona melhor com alguém ao seu lado.
Onde entra o MoodFire
A ferramenta Reformular é um registro de pensamentos sem atrito: ela pede o pensamento quente, em vez de deixar você circular um pensamento seguro, e guarda as notas de antes e depois para você ver se alguma coisa mudou de verdade. O MoodFire não é terapia e não substitui a terapia.
Se os pensamentos que você está registrando são sobre se machucar, pare e converse com alguém: um médico, uma linha de apoio emocional, uma pessoa em quem você confia. Uma ficha de exercício é a ferramenta errada para isso, e você merece falar com uma pessoa de verdade.
Fora isso: um registro, seis campos, cinco minutos. Depois, vá testar a previsão. É para essa última parte que as evidências continuam apontando.
Fontes
- Beck, Rush, Shaw & Emery (1979), Cognitive Therapy of Depression — o Daily Record of Dysfunctional Thoughts (registro diário de pensamentos disfuncionais), Guilford Press
- Greenberger & Padesky (2016), Mind Over Mood, 2.ª edição — o registro de pensamentos de sete colunas, Guilford Press
- Furukawa et al. (2021), “Dismantling, optimising and personalising internet cognitive behavioural therapy for depression”, The Lancet Psychiatry, pmc.ncbi.nlm.nih.gov
- McManus, Van Doorn & Yiend (2012), “Examining the effects of thought records and behavioral experiments in instigating belief change”, Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, sciencedirect.com
- Ougrin (2011), “Efficacy of exposure versus cognitive therapy in anxiety disorders: systematic review and meta-analysis”, BMC Psychiatry, link.springer.com
- Kazantzis et al. (2016), “Quantity and Quality of Homework Compliance: A Meta-Analysis of Relations With Outcome in Cognitive Behavior Therapy”, Behavior Therapy, research.monash.edu
- Karyotaki et al. (2021), “Internet-Based Cognitive Behavioral Therapy for Depression: Individual Patient Data Network Meta-analysis”, JAMA Psychiatry, eprints.whiterose.ac.uk
- Karyotaki et al. (2018), “Is self-guided internet-based cognitive behavioural therapy (iCBT) harmful? An individual participant data meta-analysis”, Psychological Medicine, cambridge.org
- Linardon et al. (2024), “Current evidence on the efficacy of mental health smartphone apps for symptoms of depression and anxiety”, World Psychiatry, nationalelfservice.net
- Baumel, Muench, Edan & Kane (2019), “Objective User Engagement With Mental Health Apps: Systematic Search and Panel-Based Usage Analysis”, Journal of Medical Internet Research, jmir.org